quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Medo. Estava confesso.

Medo. Eu estava, confesso.
Desci no terminal de ônibus, como combinamos, há uma hora antes do combinado. Para preencher o tempo fui ao banheiro, acompanhei levas e mais levas de passageiros, li parte do meu livro. Deu tempo para eu me arrepender de gastar o único dinheiro que tinha em bolachas ao invés de pães de queijo. Até que você chegou.
Quando te vi, senti que você trazia o suficiente para você e para mim, por isso, não havia motivos para desistir. Ainda assim, eu estava com medo, confesso. Subimos as escadas próximas e logo estávamos na rua. Já tinham mudado o tom da noite, bem mais escura. Desviando dos desconhecidos, segui suas pernas pequeninas, já tão habituadas com aquele caminho.
A nossa próxima parada era um ponto cheio, de gente, de bancas, de churrasco, de pressa com cheiro de cigarro. Mudamos de cenário, quando um ônibus lotado parou. Nós subimos. Encontramos um espaço dentro do estreito e no ritmo das lombadas travamos uma conversa animada. Há tanto tempo sem se ver, nada melhor do que falar sobre o que a gente escreveu.
O motorista corria e eu, de tempos em tempos, aproveitava para olhar o que me cercava. Não demorou para andarmos sobre aquela paisagem que nada parecia com uma chácara. O ônibus dava nome a um lugar que não existia. O que eu via eram casas e um beco de paredes pixadas, logo o atravessamos.
Saímos em uma avenida, pouco movimentada. Alguns metros mais e chegamos. Percebi que toda aquela ausência de gente, faltava naquele lugar. Redondo, cheio de cadeiras, mesas, livros e sorrisos, percebi que ali tinha música, tinha violão, tinha famílias inteiras. Ali batia um monte de coração. Ali, naquele lugar, era o Zé do Batidão, a sede da Cooperifa.
Atravessamos a multidão e alcançamos um lugar na escada lateral, que tempos depois ficou lotada. Meus olhos passeavam nos rostos, nos jeitos, mas principalmente em tudo. Sentia uma ânsia de engolir aquele clima de paz, uma vontade de gritar para todo mundo que ali tinha mundo. Não sabia explicar a explosão de sentimentos, a surpresa, por isso alguém fez isso por mim. “Quando todo mundo espera bala perdida aqui, a gente faz poesia”.
E a prtir de hoje eu não quero só a minha poesia de muros, de surtos, de preconceitos absurdos. Eu quero a literatura do black, do moleque, da senhora de leque. Eu quero a garra, a fuga das amarras. Eu quero acreditar que dentro do mundo, não existem sub-mundos, existem Raimundos e Edmundos e eles também querem viver.
E ainda que me sobrem impressões maravilhosas, eu me calo. "O silêncio é um prece".

À Dayse, meu pequeno sol e a cooperifa e seus poetas marginais. * Aspas de Sérgio Vaz*

Por Natália Oliveira

8 comentários:

sblogonoff café disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
sblogonoff café disse...

Que os corações sejam vastos e que consigam transcender as rimas, os raimundos, e zombar das barreiras!

Sopro de Eves!

Dayse Oliveira disse...

Ah querida, eu sabia que iria encontrar um maravilhoso texto por aqui hoje. Fico tão feliz por você, por nós, por todos. Essa experiência precisa ser partilhada com quem amamos e eu amo você. Belas sentimentos como sempre... seguimos juntas!

Eloisa disse...

Se eu te disser que me arrepiei voce acredita? Chegou a umedecer meus olhos.

beijo, beijo.

Rose disse...

Ma-ra-vi-lho-so!!!
"... ali batia um monte de coração...". Que delícia, que harmonia, que comunhão...
Parabéns, querida Naty. Amei as rimas e gingas do seu texto.
Bjus.

Pensamento aqui é Documento disse...

E zombar das barreiras, mas principalmente não fazer parte delas.

Viva a diversidade!

-

Dê!

Você me trouxe uma porção generosa de alegria. Não tenho palavras para agradecer!

=D

Obrigada por tudo!

-

Oi, Elo!

Acredito e fico feliz!

-

Rô!

Eu senti o Papai tão presente...

-

Meninas, obrigada pela visita!

Adoro tê-las comigo!

Daniel Savio disse...

Hum, interessante, a narração de um encontro, mas o defechos não seu lá, certo?

Fique com Deus, menina Nátalia.
Um abraço.

Pensamento aqui é Documento disse...

Dani!

Não entendi sua pergunta, rs.

Beiijos