quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Di tudo

Às vezes coisas tão maravilhosas me acontecem que quando as conto me perguntam: é verdade? E eu respondo com a mais profunda alegria privilégio ou mistério, eu vivi.
Molhei a barra da calça em busca do terceiro ponto de ônibus indicado. Parei junto às pessoas que esperavam feliz por contar com o toldo vermelho da loja de doces, os pingos caiam grossos e o guarda-chuva recém-comprado não dava conta de todos. Sequei o rosto com as mãos, olhei no relógio o horário do atraso e confirmei, com a senhora ao meu lado, “aqui passa terminal Santo Amaro?”. Ouvi, num desespero contido, a resposta. Tentei mais algumas opções, mas ela tinha cabelos brancos tingidos de castanhos, olhos caídos e uma só direção. Não sabia.
Agradeci e enquanto a ouvia se desculpar uma outra senhora me puxava pelo braço. Seus cabelos eram crespos trançados rentes à cabeça, as mechas se fundiam no preto e no branco e a distância entre uma fileira e outra era colorida por um marrom forte, num tom de chocolate. Seus olhos pareciam dois lagos negros grandes serenos e redondos e sua boca carnuda abria e fechava sem parar. Ela me dizia que sabia como eu faria para chegar. Esperei ela falar. Explicava, ditava o caminho e depois me segurava pelo braço com cuidado.
Antes de responder a primeira bateria de palavras, a vi se metendo no meio da chuva, então reparei nos seus pés calçados de meia e sapato aberto. Vestia uma calça gasta azul e uma blusa que cobria seu braço estendido. Tentei me aproximar, mas ela pediu para que eu ficasse ali, não podia me molhar dizia. Trocou algumas palavras com o motorista e logo em seguida me chamou. Entramos juntas e depois de um tempo sentamos assim. Logo chegamos ao terminal de ônibus conhecido aos meus olhos. Descemos.
Agradeci e disse que dali conseguiria. Ela não aceitou. Me puxou pela mão e me levou até o homem que vestia uniforme. Ouvimos tudo, entendi tudo, agradeci tudo de novo, ela quis me levar. Caminhávamos em direção ao próximo ponto, ela na rua eu na calçada. Não me deixava trocar. Mancava, pedia desculpas, tinha problemas no osso, mas não escondia o sorriso. Sorriso sobrado por poder ajudar. Buscaria uns remédios para um doente depois de me deixar. Já perto me entreguei e voltei dos seus braços sem deixar de perguntar. “Seu nome?”. Diná.
“Natália”, respondi e comecei a andar. Alguns passos e ela gritou num tom baixo. “Vai com Deus Natália”. E eu pensei, mas como se acabei de te deixar? E quanto ao mundo, posso te dar para você cuidar?
Às vezes coisas tão maravilhosas me acontecem que quando as conto me perguntam: é verdade? E eu respondo com a mais profunda alegria privilégio ou mistério, eu vivi.
Por Natália Oliveira

8 comentários:

Rose Cianci disse...

EX-CE-LEN-TE!!!
Literalmente, você tem o dom de transformar pequenas coisas em GRANDÍSSIMAS coisas.
Tomara Deus, continuem aparecendo várias "Dinás" em sua (e nossas) vidas. Grande beijo,
Da mana Rô

Dayse Oliveira disse...

Ele realmente te acompanha. Papai segue seus passos, te guia e carrega nos braços. Sem palavras para definir esse texto.

sblogonoff café disse...

Ei!!
Estive me refugiando por uns dias no campo. Aproveitando o feriado e meu cérebro quase fundido! Por favor, note a letra "n" entre U e o D. (!!!!)
Não li o post ainda, mas vou voltar aqui pra ler. Cheguei quase agora, mas cheguei com sono!
Tenho coisa pra contar...
PRa compartilhar!!
Amanhã envio um e-mail e comento seu post!

BEijoo!

E Sopro de Eves! (E também explico o que é SOpro de Eves!)

Mulher Vã disse...

O que passaria despercebido pra muitos em voce é diferente, admiravel essa sensibilidade quase dolorida, minha querida. Lindo texto.

Beijos

Liu Teixeira disse...

EX-CE-LEN-TE!!! [2]
Você narrou com tanta maestria e com tanto tato que apenas posso dizer que AMEI ler seu texto.
Encontrei seu blog por acaso e não me arrependo por estar voltando para comentar. Poucas são as pessoas que conseguem expressar esses pequenos sentimentos tão bem e, sinto-me feliz em informar: você é um dos selecionados.

"As palavras, escritas ou faladas, são armas poderosas nas mãos de quem tem a habilidade de manipulá-las com mestria. Podem ser usadas tanto para o bem, como para o mal. Tudo vai depender do caráter de quem possui "o dom da palavra." - Ivo S G Reis


Você tem o dom da palavra e, graças a alguma coisa (ou ser, depende da crença), utiliza com maestria!

Parabéns

Pensamento aqui é Documento disse...

Rô!

Eu aprendo com o mundo e você é a parte ensolarada dele. Meus textos são resultados de cada pessoa que habita em mim. Assinamos juntas.

Ah e tomara Deus. Tomara!

Beiiijos!

-

Pequena!

Você é o pedaço de infância, doce e olhos vivos de mim. Gosto de tê-la por aqui só quero uma certeza: suas palavras não demoram a chegar, né?

Mi!

Tão bom te ter de volta.=D
Vou esperar a sua parte da partilha da novidade, rs, adoro.

Beijos,

-

Vã, a parte colorida.

Eu com a sensibilidade, você com o giz de cera. Dá para suavizar o mundo, não?

Eu gosto. Muito.

-

Liu!

Eu agradeço a esquina que fez a gente se encontrar. E digo: desde então só temos coincidências. Eu adoro te visitar e sinto os teus textos de forma que parecem meus.

Obrigada! =D

Suas palavras me alegram.

-

Obrigada queridos!

Beijos

Daniel Savio disse...

Infelizmente, só as pessoas idosas que tem esta postura de solidariedade...

Fique com Deus, menina Natália.
Um abraço.

Natália disse...

Dani!

Espero encontrar jovens velhos nas próximas esquinas.

Beiiijos