segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Nada Passageiro

Estava cheio. Ainda assim avistei um lugar vago no fundo. Sentei e, como de costume, me perdi em linhas impressas, escritas. Um metro me separava de costas queimadas, blusa branca regata, sorriso com dentes brigados e escassos. Boné. Cabelo preto sem forma amarrado num laço frouxo, mãos com unhas grandes, pintadas de um esmalte, visivelmente, velho, descascado. Apoiada na barra de segurança próxima a porta, estava. Segurava entre os pés uma cesta cheia de balas. A percebi em um olhar rápido atravessado por uma divisória de plástico transparente.
Vestia uma calça jeans azul e um olhar perdido. Não sei por onde andavam os seus pensamentos , mas sei que voltaram ao ônibus no mesmo momento que os meus. Negro, cabeça raspada. Calça de moletom, camisa. Nas mãos uma caixa de papelão cheias de doces, na cintura uma bolsinha preta discreta. Na boca um grito em forma de pergunta: “tá vendendo aqui?” O corpo da mulher se virou e eu percebi seus olhos pequenos e pretos num rosto notavelmente constrangido. “Não. pode vender.” “Mas já vendeu?”. Não eu sabia, “não” ela respondeu. “Então daqui que eu vendo para você.”
O homem assumiu o lugar perto da catraca e descreveu os produtos que levava com tamanha vontade de vendê-los. Falava das “balas de coco feitas de leite-condensado, embaladas manualmente da amiga aqui...”. Enquanto isto, a mulher sentava em uma das poltronas recém-desocupadas. Inquieta, dizia a senhora de corpo gordo, cabelos alaranjados e roupa chamativa que “não tinha coragem de vender no ônibus. Tinha vergonha.” A outra por sua vez dizia a ela algumas palavras de incentivo. “Você não pode ter receio, está trabalhando.” Momentos depois, o negro voltou com as mãos cheias de moedas. Entregou-as a mulher e desceu.
A viagem continuou, cheia de curvas e pedidos. Os passageiros da frente pediram mais dez balas
, os de trás mais dois reais. A cada mergulho nas embalagens, uma promessa. “Eu vou vender no ônibus. Não preciso ter vergonha, né?” perguntava à senhora. “Sabe o que eu vou fazer? Vou comprar uns saquinhos, colocar as balinhas. Ai eu amarro umas fitinhas e vendo, né?”. A senhora concordava e a cada mastigada pedia mais duas, três. “Ou melhor dá umas dez para eu levar pros meus filhos”. Quando desci do ônibus a mulher prometia que venderia no ônibus, em frente ao metrô. Falava com euforia e mal percebia que a cesta estava quase vazia.
“A única maneira de eternizar a minha vida é investir na sua vida.”
Por Natália Oliveira

7 comentários:

Daniel Savio disse...

Quem pede oportunidade sempre vai ficar a chorar, então por que não tentar?

Mas respondendo a tua pergunta, é para preservar o nome dela (ela sabe do blog) e também porque ela é a minha tentação.

Fique com Deus, menina Natália.
Um abraço.

sblogonoff café disse...

Pra começar, o título foi exato: "Nada passageiro"!
Os ônibus são fragmentos ambulantes da sociedade, né, cheios de várias realidades. Alguns têm destinos, outros apenas estão,o destino é ali.Tem gente que vai, tem gente que volta, mas tem gente que é.

Gosto do seu jeito observador do mundo.Você não é alheia à vida.As coisas que você nota,a maneira como sente o que é sentimento dos outros, a forma como absorve e reflete os fatos e a emoção que imprime em tudo quando posta aqui.

Nesse texto por exemplo,sentimentos como necessidade, timidez (vergonha), solidariedade,superação... São várias coisas para um itinerário, não?!

E o final foi perfeito!
Parabéns!

Silvana Nunes .'. disse...

A vida é feita de tentativas.
Saudações Florestais !

Eloisa disse...

Que querida você, dizer que é digno de estar em tua estante. Fico muito contente, viu!

A história que descreveu é real? Fiquei com uma sensação estranha. Acho que me causou um efeito positivo. rs

Meu beijo

Pensamento aqui é Documento disse...

Dani!

A vida é uma gostosa e desafiante oportunidade, não?

Ela é minha tentação é ótima. Entendi, rs.

Amém! Você também.

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É verdade, Mi. São pequenos fragmentos, que eu procuro colecionar.

A gente vê tanta gente diferente e igual a gente que dá vontade de desvendar.

Obrigada!

=D

Fico feliz, vindo de você.

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Oi, Silvana!

Bom tê-la por aqui!

Espero que goste.

Viver e não sobreviver já é uma, não?

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Helo!

É sim.

Mais do que verdadeira. Tive o prazer de presenciar.

Opa! Isto é bom! Agora é só multiplicar.

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Beijo, beijo

Denise disse...

E não ha investimento melhor.

De tanta saudades que estava de ti,que assim q voltei vim lhe ver.
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Comentando o comentário
Tem meu carinho e minha gratidão pelas palavras lá no blog ,enquanto a tempestada passava em mim.

De

Pensamento aqui é Documento disse...

Dê!

Que visita boa. Fico feliz em saber que voltou. A tempestade renovou suas energias? Deixa eu descobrir, recebi o bilhete, tô passando no seu canto...