quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Num Mundo de Falsos Sãos

Entrei no ônibus e escolhi as primeiras cadeiras, assim como você pediu. Depois de alguns minutos, o motorista também entrou. Ele aparentava pouca idade e alguma religiosidade, antes de assumir o volante, fez o sinal da cruz. Era moreno, magro. Chovia e nós pegamos um pouco de trânsito nos primeiros momentos, mas quando todos os carros optaram pela via expressa, nós fomos pela outra e a velocidade aumentou.
Entrou muita gente depois que partimos, numa destas paradas entrou um homem. Negro de cabelos Rastafari, parecia que tinha feito há tempos, porque a raiz já aparecia com quase um dedo. Vestia uma camiseta sem mangas, amarela fosforescente e uma bermuda preta com alguns coloridos retos. Quando se aproximou um cheiro de corpo sujo invadiu de súbito minhas narinas.
Sentou ao meu lado com pernas e tronco virados para o corredor. Levantou o braço esquerdo e com a mão segurou o corrimão que crescia em nossa frente. Estava ao meu lado, mas era como se ignorasse minha presença ali. Tinha duas pulseiras iguais de cor marrom, uma em cada pulso. Largas com aspecto de madeira. Eram em relevo, uns pontiagudos.
Segurava um carrinho na mão. Era preto e estava envolto na embalagem original. Ele olhava o brinquedo e falava. Sua voz não parecia a de um adulto, era semelhante a de um desenho animado. Falava alto e sozinho. Ora parava e olhava fixamente para frente e então ria, balançando os ombros. Em certo momento, o único que se virou para o meu lado, olhou em direção a janela que eu encostava e num resmungo falou: “tomara Deus que eu não esqueça. Andréia era uma menina especial”.
Em seguida ofereceu lugar a uma senhora que chegara, a voz era clara de um adulto, fez isto girando em uma das mãos um brinco em forma de argola, era dourada. A mulher recusou, mas depois de poucos minutos ele levantou. Desceu os dois primeiros degraus da porta dianteira, há virou o corpo, como se fosse subi-los de novo, mas em vez disto estendeu os braços na altura dos ombros, flexionou as pernas e passou a soltar gritinhos. “Uuuu” “Uuuuu”. Logo substitui estes por algumas risadas curtas que começavam por um sonoro A e seguiam de seqüenciais Is. “A i i i i”. Parecia surfar.
O acrílico o separava de um menino ainda novo. Pele branca, magro, cabelos pretos penteados para um só lado. O garoto parecia não prestar atenção no homem, mas ele o viu. Como se voltasse de um transe, num movimento brusco segurou no corrimão próximo e colocou a cabeça próxima das mãos jovens que mexiam. “Quebrou ai amigão?” O menino respondeu que o fecho do chaveiro havia quebrado e que tentava consertar. O homem, então, saltou os degraus, aproximou do banco do rapazinho, levantou a camiseta, deixando aparecer parte de suas nádegas, levou uma das mãos à cintura e disse “eu também quebrei este. Sabe o que você faz? Chega em casa...”
A mulher ao meu lado parecia tensa. Conversamos um pouco, mas pude ouvi-lo dizer, ainda, ao cobrador que queria descer. Antes, lhe desejou bom trabalho, uma boa noite. Repetiu mais de uma vez, como se quisesse formalizar seu pedido. Sua voz agora era clara e sem o menor indício de loucura, mas ainda segurava o carrinho nas mãos.
"Há na loucura um prazer que só os loucos conhecem." (John Dryden)
Por Natália Oliveira

6 comentários:

Rose Cianci disse...

Nossa, que medo...
Eu também ficaria muito tensa, como a mulher do seu lado (rs). Ainda bem que tudo acabou bem, rs.
Bjus, "Drtª dos Paralelos - da vida".

paganus blogger disse...

Nossa que delicia se texto, mesmo como esse drama achei maravilhoso, me lembrou a micheLLe,

Parabéns Adorei...
Achava q só os Ônibus eram assim (*rsrrs)

paganus blogger disse...

Digo: os da minha cidade!
Aff...

sblogonoff café disse...

Estou rindo aqui por lembrar de certas coisas na vida...
Eu já te contei da minha vida com doentes mentais, né?!
E de como a sanidade é preocupante, como quem tenta ser sensato o tempo inteiro já está neurótico há muito tempo.
O cérebro é uma caixinha mágica e nem mesmo nós, repletos de suposta sanidade, podemos afirmar com veemencia que não tenhamos nossos delírios.
Incrível é o estigma que gruda na alma. Sempre háuma certa tensão em relação a quem está fora dos padrões. Sempre há um medo escondido, preso na contração dos esfincteres!! Já reparou como a gente contrari sfincteres qaundo estamos com medo?!
Mas é assim, aí, aqui, em qq lugar. A loucura é um monstro que dorme debaixo da cama e que de vez em quando nos pega de surpresa, no meio do sonho, dentro do õnibus, no trajeto pra casa...

Estava com muuuitas saudades de vir aqui!

Daniel Savio disse...

Menina, penso que ele tenha algo de louco, mas uma bondade imensuravel...

Fique com Deus, menina Natália.
Um abraço.

Pensamento aqui é Documento disse...

Rô!

O desconhecido sempre assusta, né?Mas é bom porque a gente sempre aprende.

Paganus! Fico lisongeada em lembrar a Michele, tão talentosa. Entendi, entendi.

É verdade, Mi. São mistérios dos mais cheios de cabeças. Assustam mas sempre nos deixam mais ideias do que planejamos.


Sem dúvidas, Dan. Sem dúvidas!

Beiiiijos