domingo, 13 de maio de 2012

Era felicidade?


Ela sentou tentando equilibrar a xícara de café com leite e o pão de ontem esquentado no fogão. A sacola que guardava as coisas da reforma caiu aos seus pés e ela precisou dar um pequeno chute para conseguir puxar a cadeira. A folha em branco a esperava, quase ansiosa. Há tempos não era tocada. Há tempos as palavras não chegavam. Há tempos as bailarinas não dançavam. Era uma dor disfarçada de saudade, que por um bom tempo ela soube lidar culpando, sem raiva, o cansaço. Era diferente. 


Era domingo. E ela tentava arrumar os livros encaixotados na estante do próprio quarto. Arrumava-os por ordem de tamanho e gostava quando, por coincidência, as cores se completavam. Revê-los, senti-los e decidir em que pedaço daquela extensa madeira ficariam, depois de quase um mês, era como encontrar uma felicidade de pés descalços e moletom, em um dia de inverno qualquer - e beijá-la no rosto para que sentisse a gratidão pela visita. Naqueles amontoados de palavras moravam gentes para fazer uma vida toda valer muito e de verdade. 


Parou antes de terminar, impulsionada pelo peso que lhe pressionava a testa, os olhos e o nariz – depois de tanto tempo a poeira era uma certeza -, mas não antes de acariciar o orgulho que envolvia seu peito ao ver aquilo tudo ali, junto. Entre tantas escolhas, era bonito ter tanto encaixe pro seu desarrumado. Era tudo tão normal, tão humano, mas ao mesmo tempo tão possível de sentir. Será que alguém, além dela, entenderia? Podia, até, abraçar tudo em pensamento e dizer em voz alta que daria certo, independente do que fosse para dar. Era felicidade?


O vapor que saía da água fervente tocava seu rosto, fazendo com que o ar passeasse sem esforço, de novo, pelo seu nariz. O aroma do café subia e dava a ela a certeza de que se tivesse uma competição de cheiros, o elegeria facilmente como um dos seus preferidos. Talvez por sentir que tratava-se de uma das heranças que a mãe deixaria para sempre à família. O café, em várias horas do dia, como um convite para uma boa conversa, ou um silêncio compartilhado. Como um elo. Um momento para ter ajuda no trabalho de fazer do inverso o verso em companhia. 


A lembrança adocicou sua boca, enquanto a colher passeava pela xícara, tentando diluir os pequenos grãos de açúcar que rodavam sem parar no fundo da louça marrom. Deixou a cozinha tentando equilibrar tudo, ao passo que a pantufa de lã e o piso liso tentavam brincar de algo perigoso. Empurrou as caixas de papelão com as rodinhas da cadeira e lambeu os dedos lambuzados de requeijão. O gesto fez com que seus lábios se abrissem em um sorriso, que só ela sabia o tamanho real...


Naquele momento sentia. Sentia mais do que comia, pensava ou qualquer coisa. E não era alegria, era algo sereno...era felicidade? Era Tranquilo.  Era como ter paz por não esperar, por não TER que esperar. Era longe do futuro, distante da ansiedade, da expectativa, dos machucados e até da cura. Era bom. E um bom que dá vontade de amar ainda mais o melhor do outro e o de si. Era interno, era inteiro, era conhecido, era recebido de novo, depois de tanto tempo. Era quase palpável. Era perto dela, era perto do mundo, era perto do bem, era perto do colo e do sorriso de Deus. Era feliz. Era, sim, felicidade.


Por Natália Oliveira

3 comentários:

Alvaro Vianna disse...

Saudade do seu texto, moça. Esse valeu muito a espera.

Beijos

Sena do Aragão disse...

Leve! E ao mesmo tempo carregado de conteúdo.
Já despertava saudade seus textos e contos.
E este, rico na descrição. Meu tipo favorito.

Quanto mais se lê, mas se navega nas suas palavras bem colocadas e maravilhosamente encaixadas. Uma viagem fascinante!

Encantado!

Daniele Berdusco disse...

Quanto tempo que não passo por aqui.
Valeu a pena fechar os olhos e te imaginar assim, tão feliz, tão Natália. Aquela que continua indecisa se arruma a bagunça ou morde o pão, derruba o leite ou segura o livro...

Lindo...