segunda-feira, 7 de julho de 2008

Memórias de um dia de Trabalho


Véspera de feriado, relógio marcando 22 horas, não é um bom horário para trabalhar, mas existem pessoas com fome e eu preciso atendê-las. Trabalho para uma grande rede de fast food numa empresa que fica bem perto da minha casa. Junto comigo, milhares de pessoas anotam pedidos e tentam achar a melhor forma de oferecer sobremesas e bebidas para os clientes, que na maioria das vezes, nervosos com a insistência, disparam palavrões.

Silêncio em uma central de atendimento com mais de cem funcionários é quase raro, mas acontece. Sem ligações, procuro algo para me distrair, tento achar algum joguinho, um recado esquecido no bloco de notas, mas nada encontro. Fico, então, me balançando em minha cadeira, torcendo para que o tempo passe logo e eu possa, enfim, depois de boas horas de trabalho chegar em casa, dormir e me animar para a jornada de 10 horas de trabalho do dia seguinte.

Minha vida, ultimamente é essa: trabalho, universidade, curso de línguas, livros e força para responder as expectativas da sociedade. Quando sobra tempo consigo ficar com minha família e amigos, o que me faz um bem danado, e é isso que penso enquanto as ligações não voltam. Sem perceber uma mulher de cabelos grisalhos e bochechas rosa, sentada ao meu lado, me observa. Quando a encaro, vejo sua pele marcada por linhas do tempo. Logo deixo de olhá-la.

É então, que sinto sua mão roliça em meu braço. Percebendo a aproximação, inconsciente, abro um sorriso que é retribuído logo depois. Sem perceber começamos uma conversa. Aos poucos tento desviar das gotinhas de cuspe que saem de sua boca larga e trazem um pouco de branco para minha blusa preta, enquanto mexo minhas pernas que estão doendo por estarem tanto tempo na mesma posição.

E quanto mais fala de seus filhos, casamento, casa e vizinhos, mais gargalha. Imagino que ela sim é feliz. É então que de repente sua expressão muda, seus olhos pequenos e afastados ganham um brilho diferente. Um brilho de lágrimas. Antes que possa perguntar, com um sorriso singelo, ela me diz que muitas vezes tudo que se diz são apenas sonhos.

Estendo meus braços e ela permite. Ficamos ali, então, abraçadas como se toda a dor que invade o meu peito e o dela pudesse sumir. Meu mundo de tudo, que sufoca: Trabalho, universidade, curso de línguas, livros e força para superar expectativas, e o mundo dela de nada, que falta: Casamento, filhos, casa e vizinhos...

Por Natália Oliveira

3 comentários:

rodrigo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
*.* Naty *.* disse...

CAra que louco esse post "Memórias de um dioa de trabalho".
Vc tem uma habilidade incrível de entreter as pessoas com as suas palavras, parabéns!
Que dom lindo!
DEus te abençoe !!!

Gostei muuuito!

rodrigo disse...

Muito bom está de parabéns,muita criatividade...

Amo você beijos!!!!!!!