sábado, 7 de agosto de 2010

Dona Josefa

Dona Josefa Josefa é dona de uma cor de leite com café e de um paladar um tanto especial. Detesta verduras e legumes, come manga só quando tá com vontade de verdade e não pode sentir o cheiro de macarrão, banana e chocolate. Diz que carne vermelha sempre gostou, até a idade bater na porta e levar isto também.
Vendo-a trabalhar na cozinha, ofereci ajuda duas ou três vezes quando sozinha pegou uma vasilha cheia de frango, o suficiente para trinta pessoas ou mais comerem - dá para imaginar a quantidade - disse que não precisava. Não me deixou também ajudá-la a carregar uma mesa, fez sozinha.
Quem lê pensa que tem um tamanhão, mas eu digo que Josefa é um tico de gente. Baixinha de corpo miúdo e sem muitos nutrientes, né? Ela discorda. “A saúde é Deus que me deu”, quem sou eu para discordar. Com 69 anos ela sorri bonito e me diz que é avó de 22, mãe de 7 e na lanterninha 3 bisnetos.
Trabalha duro e oferece em troca de salário seus dotes culinários e ai de quem chegar tarde para comer almoço frio, ela coloca a mão na cintura, franze a testa e dá a bronca merecida. Quando passa, ri e confessa:“eu sou um poço de chatura”.
A ela.
Por Natália Oliveira

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Tempos Fugit

...Por isto, tire o tempo para ouvir suas músicas prediletas, ler seus autores preferidos, estar rodeado das pessoas que você realmente ama. Não temos tempo para tudo, para viver bem é preciso escolher o essencial.

Ps> Arrumando minhas coisas encontrei um cartão de aniversário, reli e gostei especialmente deste trecho que divido acima com vocês.

Por Natália Oliveira

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Reconhecer

A noite já se apresentava negra do outro lado da cortina do meu quarto, mesmo assim meu sono demorava a chegar. Deitei com o coração aos pulos, os olhos ligados, buscando proteção no edredom. Flexionei os joelhos, curvei a coluna, trouxe o ursinho de pelúcia para perto de mim. Era difícil assimilar o novo corpo, o novo universo. Precisaria reaprender. Eu sofria.
O novo tempo tinha arrancado a capa que cobria os meus defeitos, o vôo acabara no chão. Estava exposta, sem maquiagem. Num tombo, num caído provocado. Voltava a ser humana com H maiúsculo, sem vaidade, sem aumentativos alheios, sem supervalorização, pelo contrário era gente. Tudo estava claro agora.
Já vinha amontoando os meus defeitos num cantinho, enquanto os elogios me entorpeciam, me fazendo acreditar ser dona de uma essência acima da média. Sabia que uma hora chegaria a hora de libertar o que não me pertencia, o que viam a mais, mas sempre deixava para depois, era gostoso.
Vivi assim até que o prazer virou medo, controle. Roubou-me a liberdade de ser o que era realmente, de verdade. É um perigo acreditar no que dizem de você sempre, é um perigo quando potencializam suas qualidades ao extremo, quando te fazem mais.
Seria um dia normal, se eu não tivesse disposta a fazê-lo diferente. Já não queria mais guardar, sustentar, algo que já não servia mais, ou melhor, que sempre me foi largo, por isto deixei que se aproximasse e que percebesse que algo estava, mesmo, fora do lugar. No perdido ajudei a situá-lo no meu incômodo. Esclareci o meu mal, do jeito conseguido, com uma sinceridade cortante. Ele estranhou.
Brigamos. Ele com razão, eu por revolta.
A noite já se apresentava negra do outro lado da cortina do meu quarto, quando deitei. Sentia-me nua, descoberta, desprotegida, mas real!
“De tudo, fico feliz de apresentar meu lado não admirável, torto, mas que também me pertence.”.
Por Natália Oliveira

terça-feira, 20 de julho de 2010

Dia do Amigo

Aos meus amigos agradeço o ano inteiro, despretensiosamente em horários diferentes, em dias sem data. Eles sabem do meu amor infinito, tanto que faço questão de declará-lo sempre, mas hoje...
Hoje... No dia de hoje, as minhas palavras são daqueles que me deram todas as letras num dia só. Pessoas que passaram pela minha vida e cuidaram da minha alma, acalmaram o meu desgosto, seguraram as minhas lágrimas. Algumas cuidaram da minha fome, outras da minha falta de dinheiro e há quem pintou o colorido no escuro da minha casca. Outras enalteceram o meu nome e sorriram um sorriso impagável quando deixei moedas. Pessoas que me ensinaram geografia sem mapas, pedidos de beijo sem fala, dignidade no corpo vendido. Gente que me chamou de anjo. Gente com G e coração maiúsculos.
Bondosos por despertarem os mais belos sentimentos e audaciosos por me apresentarem os medos escondidos, gentis por me ajudarem tratá-los. Dividiram-me histórias, me convidaram para um mundo doloroso, mas seguraram os espinhos com as mãos para que nenhum deles me machucasse. Tomaram chuva por mim, me privaram do perigo. E no perdido me disseram que São Paulo não é para ser conhecido, mas do mesmo jeito deram um jeito de me achar. Até me pediram em casamento, acarinharam a minha rosa, me apresentaram colar de bolas com gosto de infância. Me protegeram em baixo de asas feitas de uma fragilidade forte.
Aos que me apresentaram a amizade num dia e me deram certezas de toda uma vida, ainda há gente de verso bonito. O Dia do Amigo sempre foi de vocês.
PS: Às senhoras da minha humanidade: Creusa, Diná, Natália, Velinha do óculos, Moça que vende o corpo, Fernanda, França, candidata à mãe, dona do colar de bolas. Aos senhores do meu sorriso: Felipe, moço da carroça, dono das muletas, parceiro da loucura, guardião da paz, menino do paraíso, Enoque, seu Vicente, senhor da salada, Antônio.
Por Natália Oliveira

sexta-feira, 16 de julho de 2010

À Dona dos Cachos Dourados

Você tem uma mania horrorosa de me olhar com olhos de lupa. Sempre me fazendo maior, mais competente, mais generosa, mais tudo de nada que sou. É uma mania insistente de potencializar qualquer momento bom em realmente muito bom. E claro que com bombom fica melhor ainda, porque você pode colá-los nos dentes e rir de todos os estereótipos de beleza que insistem em te convencer que o bonito é ser o tal do tipo ideal. Ah, com você não. O bonito para você se mede no tamanho do coração e isto ninguém pode ver e nem é uma lógica fácil de entender.
Na verdade, fácil de entender você nem sempre é. Ora ri com o estômago, ora chora com as tripas de fora. Intensa como a vida deve ser? Não sei, mas ser com você, já que é para ser, que seja direito! Você é!De pijama e tudo, no mar. De pés sem sapatos, de molequice em baixo do braço, de lordose e unhas roídas, mas de verdade! Com verdade transparente! Quem vê você, vê você. Frente e verso, fora e dentro dá no mesmo. E por falar nisto, injustiças fora, transformações dentro, assim é você.
Você de cabelos de criança, de olhos vivos e de um desejo meu. Se eu fosse mago a transformaria num cristal para apresentar para todo mundo um pedaço meu, o pedaço cristalino meu. Você não me explica, mas eu sei que é a sua doce essência que dilata os seus olhos quando olha o jeito meu. Você, minha amiga, minha parte, minha criança bonita. À minha Flávia, a menina de cachos dourados, a minha.

Por Natália Oliveira

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Veludo

Se poderei voltar a sonhar, deixo a resposta ao futuro. Estou feliz por ter conhecido pessoas como a Vã, a Michele e agora você. É uma realidade surpreendente a essa altura da vida. Ou um milagre, como você prefere. Não há mais amargura em mim.

Numa destas trombadas de calçadas apertadas seu coração derrubou tudo que guardava. De precioso, recolhi os sentimentos numa caixa de madeira, encapada a veludo. Lá dentro misturou tudo, o mais bonito com o mais vivido, no final das contas era um infinito só!

Por Alvaro Vianna e Natália Oliveira

terça-feira, 13 de julho de 2010

Menino do sorriso, do paraíso

Em todos os canais. Todos. O mesmo caso, a mesma morte, o mesmo desespero estampado na tela.
Eu já derrubei no teclado a minha angústia algumas vezes aqui. Já declarei minha previsão: a humanidade ainda se afoga em água salgada. É muita lágrima, diariamente e de enxurrada. E o nosso medo aos poucos ganha nome: Bruno, Mizael, Nardoni, Suzane, Lindemberg, entre tantos outros, que os novos casos nos ajudarão esquecer.
Na fila do supermercado, na sala da casa, nas mesas de cerveja e nos cantos da cidade o assunto chega e fica por tempo indeterminado. A dor enraizada petrifica as palavras, arranca do povo até a fé. A fé na alegria teimosamente perseguida e quem sabe conquistada. Na tristeza a descrença chega forte, rasteira já para derrubar. Salve-se quem puder!
Sexta-feira à noite é banquete para mágoa presente, porque é a hora que o ciclo fecha. O momento em que a cabeça tá livre dos deveres, mas a procura de se ocupar. Os pensamentos se apresentam, a realidade vem logo atrás, embutida em cada reflexão. Pontadas, levemente pontadas, mostram a conexão brilhante e dolorida entre alma e coração, cérebro e tudo isto. Inevitável.
Pensava em tudo isto, enquanto falava sobre outras coisas. Esperávamos pelo garçom, ele traria nosso refúgio em bandeja. Tínhamos escolhido uma mesa com quatro cadeiras, perto do parquinho infantil do restaurante. Algo no canto, diferente do que tinham nos sugerido. No salão vários pratos desfilavam por cima de nossas cabeças, a gente esperava. Tamborilando a impaciência nos dedos, te encontrei. Um vidro nos separava. Você no colorido, eu na escuridão da minha casca.
Comia pastel com papel e tudo. Em silêncio lhe perguntei: “às vezes viver neste mundo de grande é como comer folha amassada, duro de engolir, arranca água, sabe?” Você nem notava. Em algum momento me olhou e sorriu desconfiado, encostado em quem te protegia. Era pequeno de corpo moreno, não tinha mais que três anos. Com vergonha, eu pedia para entrar no seu mundo, mas senti minha passagem censurada. Talvez fosse pequena demais. Então você deitou o rosto no ar e o teu sorriso chamou a minha calma, acalmou a minha alma.
E a nossa esperança aos poucos ganha nome: menino do sorriso, do paraíso, ainda há.
Eu tenho sido mal representado por aqueles que não Me conhecem, mas não Estou ausente ou zangado (I Jo 4:16)pois sou a expressão completa do amor. Se deleite em Mim e Eu darei a você os desejos do seu coração (Sl 37:4)pois fui Eu quem colocou esses desejos em vocês (Fp 2:13)
Por Natália Oliveira