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domingo, 13 de março de 2011

Retrato


É a paz que às vezes se apodera da minha alma.

Com os dentes recém-caídos ela desenha um sorriso enquanto eu tento descobrir o que carrega nas mãos sujas de chocolate e terra. Aperta os dedidinhos mostrando, sem perceber, que ali nada sobreviveria, mas nego acabar com o momento. Chuto coisas absurdas: “carro?”, “bola?”, “patins?”. Ela arregala os olhos a cada tentativa e balança a barriguinha que nunca viu chuchu, numa risada de último volume que me desarma inteira. Solto as últimas coisas que prendem a alegria e digo em voz alta: “viver é breve e é bom, né?”. Ela olha meus olhos marejados e abraça com os dedinhos melecados de marrom minhas pernas. Observo-a de cima. Cabelos embaraçados, calça levemente surrada, coração pulsante e falta de vontade de controle. Agacho, estonteante ela pede para ficar. Arrumo um espaço no centro de tudo e ela, com o sorriso aberto, me pede: "me acolha para sempre e me chame de paz. Sua paz”.
Ao Criador da minha!



Por Natália Oliveira

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Existência

Passados 14 dias do ano novo, digo: 2010 foi um ano bom. Consegui olhar para dentro de mim mais de uma vez e dessas visitas ao interior nunca voltei de mãos vazias. Em uma delas trouxe as armaduras usadas diante de pessoas tão frágeis quanto eu. Trazê-las à margem me custou um pouco, eram pesadas e machucavam meus braços, mas mesmo assim, bravamente – ainda que no momento me sentisse fraca– persisti.
Jogá-las no lixo não me pareceu difícil, doloroso mesmo foi perceber que, mesmo com o corpo nu e sem estoques, ainda carregava na pele a proteção. Arrancá-la encharcou meu vestido de lágrimas e o meu coração de vazio. Por um tempo, que me pareceu infinito, senti o chão desprender dos meus pés, mas sobrevivi com toda a humanidade que me cabe, caindo, ralando os joelhos e curando-os com merthiolate e band-aid.
Hoje consigo resistir às capas de super-herói, mesmo quando estão em liquidação, e mandar meus pensamentos acusadores para uma colônia de férias, quando passarem dos limites. Posso ouvir meus gritos internos, mesmo quando o barulho exterior é alto e me respeitar, mesmo quando o mundo prefere nomear esse gesto de egoísmo. Consigo me enxergar claramente, sei das minhas rosas, mas também reconheço meus espinhos e é nesse bosque que passeio em busca de respostas para a minha doce, cítrica, confusa e pulsante existência.
Por Natália Oliveira

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Não é felicidade

Na verdade não. Não dá para dizer que é felicidade genuína, daquelas que a gente tem vontade de gritar e sair para o caminho do abraço, mas é um bem-estar da forma mais literal possível. Um bem-estar de camisola, shorts, cabelos desalinhados, café com leite na xícara e pão com manteiga.
Um bem que nasce da música que toca e que joga meu corpo devagar “prum” lado e pro outro de um jeito suave. Algo como estar bem para dizer coisas sem sentido com um amigo e rir porque o que se fala não tem graça alguma. Tipo de recusar a ver matérias repetidas sobre desgraças repetidas sobre soluções não encontradas.
Apenas sentar de pernas cruzadas e ver as letras pintando o branco da folha e agradecer de peito cheio por um dia ter sido alfabetizada. Coisa de não se importar com o relógio avançado, mesmo sabendo que no outro dia vai ter trabalho. Na verdade não é felicidade genuína, é só um bem estar. Um estar bem. Tudo dosado de agora.
Por Natália Oliveira

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Tempos Fugit

...Por isto, tire o tempo para ouvir suas músicas prediletas, ler seus autores preferidos, estar rodeado das pessoas que você realmente ama. Não temos tempo para tudo, para viver bem é preciso escolher o essencial.

Ps> Arrumando minhas coisas encontrei um cartão de aniversário, reli e gostei especialmente deste trecho que divido acima com vocês.

Por Natália Oliveira

sexta-feira, 30 de abril de 2010

A Partir De

Certa vez perguntaram a um aposentado qual era a maior riqueza de um homem com mais de oitenta anos. E ele respondeu. “O poder de discernir o que realmente importa daquilo que não tem nenhum valor”¹. Quase enlouqueci quando li, logo minha cabeça que sempre me convenceu de ser tão madura, tão certinha. Mergulhei em lágrimas, fui ao fundo do poço pelo buraco que eu mesmo criei.
Rasguei os planos, chorei. Recebi amigos, os assustei. Sempre tão certa....
Senti a dor de estar errada com todos os pedaços que um dia me formei...
Mas a sanidade volta, com ela a clareza de ideias, a queda de extremos e hoje, com toda a firmeza que me resta, declarei:
Volto a andar na terra descalça, a deitar com o sol, a rir sozinha. Volto a olhar os pássaros, a abraçar as árvores, a permitir que me achem tonta demais. Volto a fazer caretas em frente ao espelho e cantar alto, a comer por desespero e estalar os dedos por ansiedade. Aprendo a sair do controle. Passo a aceitar que posso errar, passo a dar razão. Volto a ler meus livros.
Não dispenso mais nenhuma conversa com minha mãe por estar cheia de trabalhos e digo que a amo setenta vezes nove. Não perco mais oportunidades de me conhecer, faço questão de olhar para os meus medos, conto os meus defeitos e faço força para melhorá-los, mas não me cobro, tanto, mais. Respeito os meus limites.
Passo a apreciar mais ainda a liberdade. A liberdade de ser quem sou, a sua de ser quem você é. Me disponho a somas, busco sua essência.
E então, quando o dia acabar, descalça deitarei junto ao sol...
[Sem Perder a Alma – Ricardo Gondim ¹.
Post escrito em 19 de janeiro, perdido em minha caixa de e-mail, acho que vale publicar.
Por Natália Oliveira

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Me dá um presente?

Hei! Você pode me dar algo de presente? Algo bem grande? Tão grande que não dá para carregar? Não, o que eu quero eu posso ver de qualquer lugar.
Você pode me dar? Como está o céu ai? Como está? Você pode me contar? Tem muitas estrelas? Você é capaz de fazer um pedido a uma delas?
A lua já está perto ou se esconde no azul marinho? Hei! Você pode me contar?
E se o teu céu tem nuvens, que desenho você pode me dar? Qual desenho você pode me entregar? Em? Qual você pode transformar para me ofertar?
O seu tem gotas? Você pode molhar suas mãos um pouquinho para me dizer que temperatura está? Você pode? Encheu rápido ou devagar? Você pode me contar?
Você tem janelas? Você tem olhos? Você pode enxergar? Você pode me contar? Como está o seu olhar? Você pode me falar?
Por Natália Oliveira

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Falávamos de?

“Enquanto eu viver continuarei procurando o sentido da vida.” Já vi esta frase em mais lugares do que gostaria. E já tentei conversar com o autor em mais sonhos do que noites bem dormidas. E ainda a encontro na minha musculatura, no meu dia-a-dia.
A verdade é que a vida não tem o menor sentido mesmo. Investimos a maior parte do nosso tempo estudando e no final das contas até que conseguimos alguma coisa. Somos graduados em marketing pessoal, pós-graduados em etiqueta, mestres em bons negócios e doutores em equilíbrio de crises financeiras, mas quando o assunto é felicidade, autênticos analfabetos.
Conseguimos memorizar todos os talheres, mas não sabemos como comer uma coxa de frango com a mão. Fazemos planejamentos estratégicos, mas nos perdemos quando o assunto é idealizar um final de semana divertido com os amigos. Alcançamos posições de status, mas não somos modelos para as crianças mais sedentas de heróis. Apresentamos soluções para a economia mais complexa, mas somos incapazes de lidar com o dia-a-dia que só pede simplicidade.
Somos poliglotas, mas não há quem nos faça entender a língua dos idosos. Vivemos no exterior, mas mal conhecemos o nosso interior, não sabemos rir das nossas viagens. Nos entregamos para toda a informação do mundo, mas somos indiferentes aos fatos familiares. Especialistas em leitura dinâmica, mas leigos nos sinais do amor. Encontramos alternativas para o sucesso, mas não evitamos o fracasso de uma vida mal vivida.
Temos artifícios para sermos considerados super inteligentes, mas nenhum para sermos considerados sábios.
E quer saber? A vida não tem o menor sentido mesmo. E já como não há tempo de voltar e já como ciclo não há de parar “desce um suco de laranja e uma porção meia arrependimento e meia esquecimento.” Do que falávamos, mesmo?
Por Natália Oliveira

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Já viu?

Você gasta o seu dinheiro com o que?
Pois eu vou te contar que você pode deixar todas as suas moedas no bolso e contemplar o céu. Ele traz um azul de vários tons e uns brancos fofos, que dá vontade de pegar. Se der sorte, pode presenciar a mais linda faixa colorida já tecida.
O auditório não é muito estruturado, mas a ventilação é boa, às vezes traz até uns pingos de água. Refrescante. E se você ficar com frio, é só procurar um cantinho pintado por um amarelo morno.
As cadeiras não são de madeiras e nem estofadas, são retas de um mesclado verde e marrom. São modernas, você tira os sapatos e mexe os dedos para sentir leves cócegas. Têm também alguns pilares marrons, com o topo verde. [Quando ninguém tiver vendo, abrace-os e sentirá uma gostosa euforia.]
O aroma vem de umas flores. De todas elas. Diferentes, mas não sem cor. São pequenas e trazem na sua delicadeza toda a grandiosidade. Para não se sentir sozinha, eles soltam alguns pequenos bicudos de asas. Eles conversam sem parar.
Você gasta o seu dinheiro com o que?
Pois eu vou te contar que você pode deixar todas as suas moedas no bolso, seu sorriso no rosto e nem precisa se trocar. É só contemplar.
Por Natália Oliveira

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Pode?

Se a gente soubesse que tudo é tão rápido.
Se a gente soubesse que tudo é tão raro.
Se a gente soubesse que a gente só tem uma.
Se a gente soubesse o verdadeiro “invalor”.
Se a gente soubesse que vale mais um sorriso.
Se a gente soubesse a dor do menino.
Se a gente pudesse inverter tudo.
Se alguém pudesse nos inverter.
Se a gente pudesse aprender com alegria.
Se a gente pudesse errar sem sofrer.
Se a gente pudesse fazer o que tem que fazer.
Se a gente pudesse realmente viver.
Se a gente pudesse não complicar.
Se a gente pudesse se entregar.
Se a gente pudesse parar de pensar que pensa.
Se a gente pudesse só fazer o que tem para fazer: viver.
Se a gente pudesse.
Se a gente desse.
Por Natália Oliveira

terça-feira, 14 de julho de 2009

Quantos é?

Minha mesa está cheia, mas ainda assim não faço nada do que me pedem. O feriado não me preparou para uma segunda-feira de decisões, não pela manhã. No auge da minha preguiça, abro meus e-mails e apago as mensagens antes de contemplá-las, não quero fazer nada, não neste momento.
Deixo meu olhar se perder nas estantes cheias de fitas da TV, onde trabalho. Sei que as pessoas vão e vem, pois ouço um barulho de passos apressados aqui, mas nada me desperta, nada me faz voltar. Apesar de descansar meus braços na mesa, meu corpo balança em outro lugar. Viajo no dia de ontem, no exato momento em que não estava aqui. Aquela palestra.
Cheguei à sala espaçosa com um pouco de atraso, as pessoas já ocupavam as cadeiras posicionadas de frente pro palco. Em busca de um lugar para sentar, me guiei por alguns pontos azuis perdidos num canto, logo fiz parte do mar de gente. O homem de ralos cabelos brancos e óculos redondos subiu no ponto mais alto daquele lugar que, naquele momento, mais parecia a ponta de um barco. Ficamos em silêncio até a voz ressoar.
Aprendi muitas coisas naquela noite, entre elas, uma ainda me bate no peito. “Hoje, alguém que vocês não conhecem se mistura a mim e fala para vocês. Esta pessoa é o meu avô, que me ensinou valores inegociáveis”. As mãos brancas e grossas mexiam no ritmo de sua garganta e as ondas balançavam. “Deixe sua vida em outras pessoas. Trabalhe pela vida, já que dessa forma ela pode se eternizar. Não existe coisa mais triste do que não ensinar, nao compartilhar.”
Minha mesa está cheia, mas ainda assim não faço nada do que me pedem. Viajo no dia de ontem, no exato momento em que não estava aqui. Aquela palestra me fez perguntas e eu me coloco hoje a responder. Quem escreve neste blog além de mim? Quem me motivou a estar aqui? Quem faz parte de mim?Eu sou eu e mais quantas pessoas? Além do sorriso da minha mãe e da força do meu pai? Quantas sou? E você, sabe quantos eus é?
Ao Pastor Ricardo Gondim.
Por Natália Oliveira