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sábado, 27 de novembro de 2010

Venha

Venha, apesar da névoa instalada nesse dia de sol. Sente-se e conte-me coisas boas. Algo que tenha lhe feito feliz hoje, ontem ou semana passada. Qualquer coisa que puxou seu sorriso de um lado a outro e deixou o mundo mais colorido. Fale, eu ouvirei. Esqueça do sério demais, do formal. Ria, eu vou com você, afastando toda gente que diz que rir alto é “feio demais”. Não se acanhe! Não há nada de brilho aqui, além do sol. Venha assim mesmo. Não levo nada além do pano leve do vestido. Vestida de mim da cabeça aos pés. Chegue e sinta o seu ser também, ele pede para tirar o aperto. O nosso estreito. Sente-se. Fique.

Por Natália Oliveira

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Não é felicidade

Na verdade não. Não dá para dizer que é felicidade genuína, daquelas que a gente tem vontade de gritar e sair para o caminho do abraço, mas é um bem-estar da forma mais literal possível. Um bem-estar de camisola, shorts, cabelos desalinhados, café com leite na xícara e pão com manteiga.
Um bem que nasce da música que toca e que joga meu corpo devagar “prum” lado e pro outro de um jeito suave. Algo como estar bem para dizer coisas sem sentido com um amigo e rir porque o que se fala não tem graça alguma. Tipo de recusar a ver matérias repetidas sobre desgraças repetidas sobre soluções não encontradas.
Apenas sentar de pernas cruzadas e ver as letras pintando o branco da folha e agradecer de peito cheio por um dia ter sido alfabetizada. Coisa de não se importar com o relógio avançado, mesmo sabendo que no outro dia vai ter trabalho. Na verdade não é felicidade genuína, é só um bem estar. Um estar bem. Tudo dosado de agora.
Por Natália Oliveira

terça-feira, 13 de julho de 2010

Menino do sorriso, do paraíso

Em todos os canais. Todos. O mesmo caso, a mesma morte, o mesmo desespero estampado na tela.
Eu já derrubei no teclado a minha angústia algumas vezes aqui. Já declarei minha previsão: a humanidade ainda se afoga em água salgada. É muita lágrima, diariamente e de enxurrada. E o nosso medo aos poucos ganha nome: Bruno, Mizael, Nardoni, Suzane, Lindemberg, entre tantos outros, que os novos casos nos ajudarão esquecer.
Na fila do supermercado, na sala da casa, nas mesas de cerveja e nos cantos da cidade o assunto chega e fica por tempo indeterminado. A dor enraizada petrifica as palavras, arranca do povo até a fé. A fé na alegria teimosamente perseguida e quem sabe conquistada. Na tristeza a descrença chega forte, rasteira já para derrubar. Salve-se quem puder!
Sexta-feira à noite é banquete para mágoa presente, porque é a hora que o ciclo fecha. O momento em que a cabeça tá livre dos deveres, mas a procura de se ocupar. Os pensamentos se apresentam, a realidade vem logo atrás, embutida em cada reflexão. Pontadas, levemente pontadas, mostram a conexão brilhante e dolorida entre alma e coração, cérebro e tudo isto. Inevitável.
Pensava em tudo isto, enquanto falava sobre outras coisas. Esperávamos pelo garçom, ele traria nosso refúgio em bandeja. Tínhamos escolhido uma mesa com quatro cadeiras, perto do parquinho infantil do restaurante. Algo no canto, diferente do que tinham nos sugerido. No salão vários pratos desfilavam por cima de nossas cabeças, a gente esperava. Tamborilando a impaciência nos dedos, te encontrei. Um vidro nos separava. Você no colorido, eu na escuridão da minha casca.
Comia pastel com papel e tudo. Em silêncio lhe perguntei: “às vezes viver neste mundo de grande é como comer folha amassada, duro de engolir, arranca água, sabe?” Você nem notava. Em algum momento me olhou e sorriu desconfiado, encostado em quem te protegia. Era pequeno de corpo moreno, não tinha mais que três anos. Com vergonha, eu pedia para entrar no seu mundo, mas senti minha passagem censurada. Talvez fosse pequena demais. Então você deitou o rosto no ar e o teu sorriso chamou a minha calma, acalmou a minha alma.
E a nossa esperança aos poucos ganha nome: menino do sorriso, do paraíso, ainda há.
Eu tenho sido mal representado por aqueles que não Me conhecem, mas não Estou ausente ou zangado (I Jo 4:16)pois sou a expressão completa do amor. Se deleite em Mim e Eu darei a você os desejos do seu coração (Sl 37:4)pois fui Eu quem colocou esses desejos em vocês (Fp 2:13)
Por Natália Oliveira

sexta-feira, 9 de julho de 2010

A Paz da Minha Paz

Eu corro, mas a paz me chama. Invade-me aos poucos e convida-me de um jeito irresistível a ficar junto. Eu tento um argumento, mas ela é teimosa, não aceita, não arreda pé. Amiga íntima da vida que passa e que sabe o que há de melhor, me convence. Eu entrego a minha alma, então. Ela fica satisfeita e me alegra de um jeito doce. O suspiro carrega o vento, a tarde cai ao nosso alcance.

Por Natália Oliveira

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Ao meu motivo, sua breve história II

Hoje encontrei Creusa. Estava no banco da frente com a mesma calça jeans de outrora, marcando os ossos, como da outra vez. Sentei ao seu lado e ela me explicou a beleza da blusa que vestia, de linha, listras coloridas, cores claras. A patroa havia dado, os calçados de plástico também. Apressou em me dizer que não ligava para a moda, vestia o que tinha, já que o importante mesmo é não deixar os filhos com a barriga seca e a casa sem água e sem luz. Casa que sempre tem um “café digno e que não causa vergonha a ninguém”.
Vergonha tem a filha de usar usado, quer uma roupa nova para passar o Natal. Disse a Creusa que os Shoppings estão lotados e ela respondeu que Santo Amaro também. A menina, de 13 anos, precisará escolher entre as que tem, a mais jeitosinha, já que a peça nova só vem no ano que vem, me falou Creusa. Creusa que não tem luxo, que começou a trabalhar com 9 anos e que tem usado as férias do emprego, para ajudar a mãe de sua patroa nos cuidados da casa, de outra casa. Digo o óbvio, “é cansativo, né?” e ela responde com um sorriso tímido. “É, mas eu sou pai e mãe”.
Hoje não me esforço mais para lembrar do seu sorriso, hoje ela olhou para mim, de frente. Pude ver, então, os dente amarelos em cacos, espaçados. Os olhos pequenos e puxados que quase se fecharam quando suas mãos tocaram meu joelho. Pude ver a garra no seu rosto magro quando me disse que guarda o seu nome com todas as forças que tem. Respondi com euforia, que o que levamos desta vida é o que a gente é na vida. Concordamos.
Dei o sinal e ela me disse: “conheci uma menina muito legal”, olhei no fundo dos seus olhos, sorri. Antes de desçer, uma ideia. "Existem coisas na vida que se precisassem de razão, perderiam todo o sentido..." Em pé, já na porta, olhei para Creusa, ela mexia discretamente as mãos e fitava algo além da janela. Estava longe, pensava.
Por Natália Oliveira