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terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Ao meu motivo, sua breve história II

Hoje encontrei Creusa. Estava no banco da frente com a mesma calça jeans de outrora, marcando os ossos, como da outra vez. Sentei ao seu lado e ela me explicou a beleza da blusa que vestia, de linha, listras coloridas, cores claras. A patroa havia dado, os calçados de plástico também. Apressou em me dizer que não ligava para a moda, vestia o que tinha, já que o importante mesmo é não deixar os filhos com a barriga seca e a casa sem água e sem luz. Casa que sempre tem um “café digno e que não causa vergonha a ninguém”.
Vergonha tem a filha de usar usado, quer uma roupa nova para passar o Natal. Disse a Creusa que os Shoppings estão lotados e ela respondeu que Santo Amaro também. A menina, de 13 anos, precisará escolher entre as que tem, a mais jeitosinha, já que a peça nova só vem no ano que vem, me falou Creusa. Creusa que não tem luxo, que começou a trabalhar com 9 anos e que tem usado as férias do emprego, para ajudar a mãe de sua patroa nos cuidados da casa, de outra casa. Digo o óbvio, “é cansativo, né?” e ela responde com um sorriso tímido. “É, mas eu sou pai e mãe”.
Hoje não me esforço mais para lembrar do seu sorriso, hoje ela olhou para mim, de frente. Pude ver, então, os dente amarelos em cacos, espaçados. Os olhos pequenos e puxados que quase se fecharam quando suas mãos tocaram meu joelho. Pude ver a garra no seu rosto magro quando me disse que guarda o seu nome com todas as forças que tem. Respondi com euforia, que o que levamos desta vida é o que a gente é na vida. Concordamos.
Dei o sinal e ela me disse: “conheci uma menina muito legal”, olhei no fundo dos seus olhos, sorri. Antes de desçer, uma ideia. "Existem coisas na vida que se precisassem de razão, perderiam todo o sentido..." Em pé, já na porta, olhei para Creusa, ela mexia discretamente as mãos e fitava algo além da janela. Estava longe, pensava.
Por Natália Oliveira

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Tá topado

Você não sabe quanto tempo te esperei. Quantas noites de sono, olhos inchados, boca seca de tanto desabafo. Você não sabe quanto tempo te esperei aparecer num cavalo branco, cheio de flores, chocolates e corações dourados. Sonhei com os seus olhos, com seus abraços e até com os nossos passeios num lago calmo.
Sonhei com o seu sorriso e o teu afago. Imaginei as suas mãos junto as minhas tremulas de emoção ao receber o pedido de namoro inesperado. Sonhei acordada com o sonho nosso, sonhei com uma noite ao seu lado. Sonhei.
Até que um dia te encontrei todo invertido. Você não tinha os cabelos penteados e nem o sorriso alinhado. Você era diferente do que quis. Era tímido, nada sociável e nem tinha um cavalo branco, só dinheiro para improvisar um lanche mal recheado. Você não era o meu sonho, era o lado mais torto, mais atrapalhado.
Na busca por um perfeito esbarrei em você e na batida de ombros as ilusões, os sonhos e os desejos certos caíram como cadernos desenhados. Olhamos para baixo e passamos por eles num passo só, rumo ao boteco de cadeiras de plástico, onde joguei coca-cola de canudo no seu rosto nada barbeado.
E desde o nosso tropeço que descobri a falta de graça em encontros. Gostoso mesmo é o tombo, a topada. A sutileza tem mais a ver com princesas e estrelas em coroas e tudo isto não vai bem com água, grama e guerras de travesseiro. Delicadeza enrosca, embaraça complica. Bom mesmo é ser menina com unha feita e bola no pé, mulher com batom na boca e rosto sujo de tinta. Feminina em tudo, mas moleca na maior parte.
Desde então te escolho todos os dias para ser a soma do meu incerto. A multiplicação do meu todo torto. Te escolho para ver a minha garganta gigante numa risada indiscreta. E confesso, desde que te topei, o meu mundo tá mais inacabado do que antes e este, certamente, é o motivo da minha felicidade constante.
Na busca por alguém se apaixone perdidamente por você. E quando encontrar, não se esqueça: ainda que sejam diferentes, todo mundo tem um torto para oferecer.
Por Natália Oliveira