Fui ao centro de São Paulo a procura de um documento. Minha missão era clara: descer no ponto certo, achar o prédio do Sindicato e voltar para casa com a carta, sem me perder. Era tarde de outono, sexta-feira, o tempo estava fresco e o céu azul. Sai do escuro do metrô e o sol me recebeu. Encontrei a rua do mesmo jeito que estava, meses atrás, na última visita. A barraquinha de filmes no mesmo lugar, a banca de jornais na calçada e as cadeiras de plástico no bar ao lado. Tudo nos conformes.
Andei em direção a praça próxima enquanto me perguntava “reto ou esquina?”. As pessoas passavam apressadas, o vendedor de comida ensinava roteiro e uma música alta rolava. E eu tentava de todas as formas acionar a memória. Sai sem endereço. Sem nome de rua. Não dava nem para perguntar. Tinha horário, arrisquei alguns passos. Parei diante da construção amarela da igreja, “contorno ela ou não?”. A música, antes fundida com outros barulhos, se mostrava mais clara, agora. Sons de instrumentos um sobrepondo o outro, nada convencional. Diferente. De onde vinha?
Mexi o corpo a procura. Meus olhos encontraram um tapete marrom claro, feito de couro, estendido no chão, ali perto. Uma mulher de cabelos longos e pretos repousava as pernas cruzadas ao lado de um radinho a pilha. Os fios trançados ostentavam penas coloridas. Ao seu lado, um homem de pele dourada balançava pernas e braços, o vento batia no cocar enquanto ele dançava. Dançava sem parar. Quando a música já estava no fim, sem cessar os movimentos ele pedia à índia, ela voltada. Ninguém assistia ao espetáculo.
A tarde já tinha caído quando sai do prédio com o envelope. Talvez tenha sido isto, o azul marinho do céu me confundiu. Atravessei as avenidas paralelas embaixo do viaduto e continuei em busca do metrô. Demorei um pouco para perceber que estava perdida e mais ainda para encontrar alguém que soubesse me dizer por onde deveria ir.
Caminhei tudo de novo, sentido contrário. Não tinha quase ninguém mais na rua, os comércios estavam com as portas semi-abertas ou já fechadas. Na calçada torcia pelo vermelho do semáforo, quando o vi chegar. Vinha com os carros, mas vinha devagar, sem pressa. Olhei para o seu rosto de anos a mais e ouvi o seu convite. “Vamos casar?”. Não respondi nada ao cavalheiro, silenciosa segui, ele fez o mesmo. Cavalheiro sem cavalo, mas com uma carroça e bastante coisa dentro, até.
Depois de tanto, consegui chegar ao metrô. Entrei e sai depois de uma hora. O cenário era o mesmo, barraquinha, banca, cadeiras de plástico. Horário de pico, impossível entrar nos vagões. Esperei o quanto pude, mas não deu mais. O limite foi uma discussão entre dois senhores, brigavam porque um acusava o outro de empurrar. A verdade é que era cotovelo e atropelo para todos os lados, impossível achar o responsável. Vou de ônibus.
Insisti bastante até encontrar alguém que soubesse. Ela. Desviava de pessoas sentadas em volta de mesas regadas a cerveja e segurava a bolsa com força. Parou desconfiada quando a abordei. Expliquei que eu devia procurar por um ponto ao lado de um Bradesco, mas não sabia como chegar lá. Em resposta, ela me olhou nos olhos e me explicou pausadamente para que eu entendesse. Agradeci e então ela se aproximou um pouco mais e me suplicou cuidado, “lá é perigoso, tá?”. Algo de maternal transbordava naquele pedido.
Cheguei ao ponto e recorri ao homem de camisa pólo e ar descansado. Contei minha aventura no centro, “me perdi pelas ruas, meus planos de voltar para casa de metrô não deram certo e agora preciso de um ônibus, que eu não sei qual é”. Por sorte ele sabia. Agradeci. Permanecemos em silêncio até que ele pediu para que eu não ficasse chateada por me perder em São Paulo, afinal de contas “quem não é daqui, estranha mesmo, é normal”. Não sei se minha expressão denunciava algo não sentido, mas ele pareceu se preocupar. Logo o letreiro luminoso deu vida ao meu destino, dei sinal e antes de subir ele me lembrou o caminho. “Não esquece”.
Minha missão era clara: descer no ponto certo, achar o prédio do Sindicato e voltar para casa com a carta, sem me perder. De tudo, passei pela selva, abandonei meu noivo, conheci candidatos a mãe e irmão e ainda voltei com a carta.
Por Natália Oliveira
sábado, 10 de julho de 2010
A Carta
Fui ao centro de São Paulo a procura de um documento. Minha missão era clara: descer no ponto certo, achar o prédio do Sindicato e voltar para casa com a carta, sem me perder. Era tarde de outono, sexta-feira, o tempo estava fresco e o céu azul. Sai do escuro do metrô e o sol me recebeu. Encontrei a rua do mesmo jeito que estava, meses atrás, na última visita. A barraquinha de filmes no mesmo lugar, a banca de jornais na calçada e as cadeiras de plástico no bar ao lado. Tudo nos conformes.
Andei em direção a praça próxima enquanto me perguntava “reto ou esquina?”. As pessoas passavam apressadas, o vendedor de comida ensinava roteiro e uma música alta rolava. E eu tentava de todas as formas acionar a memória. Sai sem endereço. Sem nome de rua. Não dava nem para perguntar. Tinha horário, arrisquei alguns passos. Parei diante da construção amarela da igreja, “contorno ela ou não?”. A música, antes fundida com outros barulhos, se mostrava mais clara, agora. Sons de instrumentos um sobrepondo o outro, nada convencional. Diferente. De onde vinha?
Mexi o corpo a procura. Meus olhos encontraram um tapete marrom claro, feito de couro, estendido no chão, ali perto. Uma mulher de cabelos longos e pretos repousava as pernas cruzadas ao lado de um radinho a pilha. Os fios trançados ostentavam penas coloridas. Ao seu lado, um homem de pele dourada balançava pernas e braços, o vento batia no cocar enquanto ele dançava. Dançava sem parar. Quando a música já estava no fim, sem cessar os movimentos ele pedia à índia, ela voltada. Ninguém assistia ao espetáculo.
A tarde já tinha caído quando sai do prédio com o envelope. Talvez tenha sido isto, o azul marinho do céu me confundiu. Atravessei as avenidas paralelas embaixo do viaduto e continuei em busca do metrô. Demorei um pouco para perceber que estava perdida e mais ainda para encontrar alguém que soubesse me dizer por onde deveria ir.
Caminhei tudo de novo, sentido contrário. Não tinha quase ninguém mais na rua, os comércios estavam com as portas semi-abertas ou já fechadas. Na calçada torcia pelo vermelho do semáforo, quando o vi chegar. Vinha com os carros, mas vinha devagar, sem pressa. Olhei para o seu rosto de anos a mais e ouvi o seu convite. “Vamos casar?”. Não respondi nada ao cavalheiro, silenciosa segui, ele fez o mesmo. Cavalheiro sem cavalo, mas com uma carroça e bastante coisa dentro, até.
Depois de tanto, consegui chegar ao metrô. Entrei e sai depois de uma hora. O cenário era o mesmo, barraquinha, banca, cadeiras de plástico. Horário de pico, impossível entrar nos vagões. Esperei o quanto pude, mas não deu mais. O limite foi uma discussão entre dois senhores, brigavam porque um acusava o outro de empurrar. A verdade é que era cotovelo e atropelo para todos os lados, impossível achar o responsável. Vou de ônibus.
Insisti bastante até encontrar alguém que soubesse. Ela. Desviava de pessoas sentadas em volta de mesas regadas a cerveja e segurava a bolsa com força. Parou desconfiada quando a abordei. Expliquei que eu devia procurar por um ponto ao lado de um Bradesco, mas não sabia como chegar lá. Em resposta, ela me olhou nos olhos e me explicou pausadamente para que eu entendesse. Agradeci e então ela se aproximou um pouco mais e me suplicou cuidado, “lá é perigoso, tá?”. Algo de maternal transbordava naquele pedido.
Cheguei ao ponto e recorri ao homem de camisa pólo e ar descansado. Contei minha aventura no centro, “me perdi pelas ruas, meus planos de voltar para casa de metrô não deram certo e agora preciso de um ônibus, que eu não sei qual é”. Por sorte ele sabia. Agradeci. Permanecemos em silêncio até que ele pediu para que eu não ficasse chateada por me perder em São Paulo, afinal de contas “quem não é daqui, estranha mesmo, é normal”. Não sei se minha expressão denunciava algo não sentido, mas ele pareceu se preocupar. Logo o letreiro luminoso deu vida ao meu destino, dei sinal e antes de subir ele me lembrou o caminho. “Não esquece”.
Minha missão era clara: descer no ponto certo, achar o prédio do Sindicato e voltar para casa com a carta, sem me perder. De tudo, passei pela selva, abandonei meu noivo, conheci candidatos a mãe e irmão e ainda voltei com a carta.
Por Natália Oliveira
sexta-feira, 9 de julho de 2010
A Paz da Minha Paz
Eu corro, mas a paz me chama. Invade-me aos poucos e convida-me de um jeito irresistível a ficar junto. Eu tento um argumento, mas ela é teimosa, não aceita, não arreda pé. Amiga íntima da vida que passa e que sabe o que há de melhor, me convence. Eu entrego a minha alma, então. Ela fica satisfeita e me alegra de um jeito doce. O suspiro carrega o vento, a tarde cai ao nosso alcance.
Por Natália Oliveirasegunda-feira, 5 de julho de 2010
Ou não
Foi uma coincidência incrível. Minha mãe me pegou pelo braço e disse “Naty, veja se consegue baixar Mãos Talentosas, o pastor Ricardo disse que é ótimo”. Era domingo, na igreja, ela falava aos cochichos. No dia seguinte uma amiga, o pequeno Sol já mencionado aqui, me mandou e-mail sobre a mesma coisa: “precisamos combinar de ver Mãos Talentosas, é lindo, lembrei de você”. Hoje vejo pela segunda vez a história de Benjamin Carson.
Não sei fazer críticas de filme, mas está tudo tão aos montes aqui dentro que as impressões estão pulando no teclado. Carson nasceu em lar pobre, filho de pai ausente e mãe analfabeta. Na escola somava notas ruins e sofria constantes gozações de outros alunos, algumas vezes resolvidas com agressões. Discriminado por ser negro, não via potencial em nada que fazia.
O que de bom poderia vir de Carson? Ter nascido em solo estrangeiro não impede de enxergarmos o destino. Temos exemplos todos os dias, nos faróis, nas calçadas, nos noticiários. Quando viram documentários, o acesso de compaixão vem certeiro. O que esperar de alguém que sofreu tanto? Revolta, claro. Uma mínima reação a tudo de ruim que aconteceu. Ou não. O ou não é fascinante.
O ou não une dois extremos: a dúvida e a certeza. A dúvida dos ultimatos e a certeza de que se pode ir bem mais além do estipulado, é só trabalhar duro e não conhecer o limite.
Por Natália Oliveira
domingo, 4 de julho de 2010
Take for me
Aproveitei a luz do quarto e me ajoelhei. Não consegui dizer nada, além do pedido de ajuda num balbucio. Pedia um encontro, meu coração gritava.
Sai de sua presença triste. Realmente triste. Uma vontade boa de chorar apertava meu peito, mas nem as lágrimas me acompanhavam.
Depois de tanto sorriso sincero, meu coração espremeu, desespero veio levemente e de repente se instalou sem dizer por que.
Um desabafo, amigos ao socorro, as lágrimas rolaram grossas. Reaprendi a soluçar. Chorei com todo corpo.
A água inundou tudo, molhou o roxo do vestido. A onda trouxe o profundo e eu entendi: medo de viver do mais autêntico. Medo de usar os dias sem saber se são mesmo para o que tenho feito.
Quando a margem cessou, sequei os olhos ainda marejados e num agradecimento sem palavras senti o que precisava: a falta de certeza, mas a doce presença em qualquer caminhada.
Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. João, 14:1 -
Por Natália Oliveira
A Vida
Quero uma felicidade permanente, sorrisos em lábios que me beijem. Quero, não a ausência de problemas, mas as mãos que se unem para resolvê-lo. Quero um poema que cante a eterna presença daqueles que se foram. Quero a vida, a vida bem sentida. Quero as lágrimas que suplicam um afago acessível. Abraços demorados, gargalhadas que nos levem ao chão. Quero amor eterno, destes que não se encontram mais. Quero amor, destes que não se compram nem se vendem, mas que se recebe de graça e pela graça de uma doação sincera, sensível e simples. Eis o meu ideal de Vida.
Um dia encontrarei esta Vida.

Por Renato Marques, meu amigo. Meu fiel e bondoso amigo.
Visitem o coração dele: http://poemado.blogspot.com/
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Sobre meu lado mediano
Eu assumo meu lado mediano e desde então a gente convive bem. E é um bem para melhor, com leveza e picos de felicidade. Já não há espaço para pressão, mandei-a embora por justa causa. E deixei avisado na portaria: caso ela volte mostre o aviso colado na fachada “não aceitamos comparações”.
Eu sei o tamanho do meu lado mediano, não preciso de dedos apontados para lembrá-lo. Sei que ele é um gigante diante de uma menina, mas ela tem uma vida inteira ainda. E tenho dito: nada de receber caixas de ultimatos e sacos de prazos, um passo atrás do outro, direto para casa e cara nos livros. E pernas na estrada. E mercúrio nos joelhos. E experiências das cicatrizes.
Eu sei o tamanho do meu lado mediano e já preparei o tênis, por isto não me venha com teorias prontas, porque é na margem que eu me encontro. São das pegadas menos exploradas que eu trilho o meu caminho. É sem pressa e nos intervalos que entendo de tudo. É na rua, é no meio, é no cheio.
É na conversa com ilhas, com amigos, comigo. É me carregando às vezes, é me abandonando outras, é me reconhecendo. É no foco da busca, é na direção contrária, é no destino mutável, é na estrada de gente. É ao lado do meu lado, é na direção da minha vida, é na busca dos meus desejos, é na força para vencer os medos. É na certeza do meu mediano, é no perceber das minhas falhas, é na disposição para consertá-las, que eu chego. Eu chego.
Por Natália Oliveira