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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Sobre meu lado mediano

Eu assumo meu lado mediano e desde então a gente convive bem. E é um bem para melhor, com leveza e picos de felicidade. Já não há espaço para pressão, mandei-a embora por justa causa. E deixei avisado na portaria: caso ela volte mostre o aviso colado na fachada “não aceitamos comparações”.

Eu sei o tamanho do meu lado mediano, não preciso de dedos apontados para lembrá-lo. Sei que ele é um gigante diante de uma menina, mas ela tem uma vida inteira ainda. E tenho dito: nada de receber caixas de ultimatos e sacos de prazos, um passo atrás do outro, direto para casa e cara nos livros. E pernas na estrada. E mercúrio nos joelhos. E experiências das cicatrizes.

Eu sei o tamanho do meu lado mediano e já preparei o tênis, por isto não me venha com teorias prontas, porque é na margem que eu me encontro. São das pegadas menos exploradas que eu trilho o meu caminho. É sem pressa e nos intervalos que entendo de tudo. É na rua, é no meio, é no cheio.

É na conversa com ilhas, com amigos, comigo. É me carregando às vezes, é me abandonando outras, é me reconhecendo. É no foco da busca, é na direção contrária, é no destino mutável, é na estrada de gente. É ao lado do meu lado, é na direção da minha vida, é na busca dos meus desejos, é na força para vencer os medos. É na certeza do meu mediano, é no perceber das minhas falhas, é na disposição para consertá-las, que eu chego. Eu chego.

Por Natália Oliveira

segunda-feira, 31 de maio de 2010

"Nós não somos homens e mulheres viajando por um deserto sem água, nós somos homens e mulheres viajando por uma fonte de água doce e estamos morrendo de sede." Ricardo Gondim.

Por Natália Oliveira

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Para onde vão as promessas?

Esperei que se servissem. A máquina de refrigerantes estava bem ao lado da saída e como estavam em duas bloqueavam a passagem. Ao passo que uma enchia o copo, a outra ouvia a resposta da amiga à sua pergunta. “Não como hambúrguer até o final da outra semana, porque vi um motoboy atropelado e prometi a Deus que se ele vivesse faria isto” “E como saberá se ele viveu?” “Vou fazer sem saber”.
Saímos à procura de mesas, eu encontrei uma vazia do lado esquerdo do salão, elas ocuparam as últimas duas cadeiras, já reservadas, por alguns conhecidos, atrás de mim. A história do motoboy caído e a promessa pela vida dele foi replicada aos que não sabiam e o assunto logo mudou.
Saboreando o peixe ao molho branco, sozinha, pensei. Interessante esta história de promessas. Promessa na concepção popular é se privar de algo a favor de outra coisa. Numa linguagem mais clara é sacrifício. A menina se priva de hamburguês e em troca Deus preserva a vida do motoboy. Solidário. Mas que Deus é este? O Deus que eu conheço, que eu experimento em graças diárias é bem maior que isto.
Uma mordida na Ana Carolina para descer o pensamento. Não acredito num Deus sádico, que só ouve orações depois de um bom sacrifício. Qual a importância dos meus chocolates nas obras de Deus? O que Ele fará com eles, ou melhor, qual o resultado de uma abstinência de cacau para a corrida do mundo?
Religião só faz sentido quando muda a sua vida e por meio dela a do outro. No lugar de subtrações, somemos. Já pensou se ela tivesse prometido curtir cada minuto com os amigos, sem se importar se são iguais ou diferentes, sem fazer de pequenas coisas motivos grandiosos para brigas, porque viu um motoboy atropelado e gostaria que ele vivesse. E a amiga perguntaria como saberia se ele viveu e ela diria que não saberia, mas que ele a lembrou o quão frágil é a vida e por isto faria tudo para amar antes que não desse mais tempo.
Sacrifícios são solidários, atos de fé e merecem meu respeito, mas motoboys continuam morrendo e o amor se esvaindo.
Pensemos...
Por Natália Oliveira