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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Pedaços de Caminho

Mergulho no meu inteiro e recolho todos os pedaços que um dia me foi todo. Junto todos eles aos meus pés e, com a paciência que tomo de volta da correria que passa depressa, tento encaixá-los um a um.
Mudo a ordem, jogo a frente para o verso e inverto as pontas, mas eles se jogam para um lado e para outro, recusando-se à velha entrega. Tento por várias vezes seguidas devolvê-los à forma que sempre tiveram, mas eles simplesmente me negam.
Tomada pelo desconforto, de repente sou a criança que num instante conhece e reconhece a necessidade de crescer, mas que não sabe, ainda, ao certo como. Aliás, o que não sabe é como preencher os vazios, se é que existe alguma necessidade de preenchê-los.
Rendo-me à água que vem para renovar o mergulho no inteiro e da cascata se fazer um novo ciclo. Permito-me escorrer, enquanto tudo se dissolve como água com açúcar. E em um instante contemplo o riso salgado nascido no berço divino da transformação.
Dor e felicidade se confundem. Saudade e desprendimento se laçam e eu aciono o super-herói esquecido, que cura levemente a carne viva. Aos poucos me liberto, me arrisco, forço-me e lanço um último olhar para a correnteza que leva os pedaços antigos embora.
Recomponho-me com as pernas bambas, mas dignas de uma nova caminhada. E num fechar de olhos agradeço todos aqueles fragmentos que um dia me foram escudo.
Enxugo a última gota que dá aos lábios o gosto salgado e desejo boa sorte para o futuro, porque como avisado foi, os meus pés já estão calçados. A respiração me enche o peito todo e com a força que me renova empurro a porta com um chute só. O mundo inteiro se apresenta, como uma miniatura.
Soluço de susto e neste momento sou exatamente metade segura, metade desconhecido, metade medo e inteira vontade.
Apresento-me e não me desculpo pela demora, nunca fui de acelerar os meus processos. Em resposta ele apenas me olha e em um silêncio falado, me ordena: explore-me.
Um brinde aos ciclos que me encantam os caminhos da vida.
Por Natália Oliveira

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Ainda Aberta

Por mais dor que carregasse, foi um gesto enraizado no amor. Um convite que fiz do melhor jeito que encontrei. Um chamado para termos uma vida diferente da vivida e um pouco sofrida dos nossos pais. Não era para ser diferente por capricho, mas por uma vontade de não se acostumar com os vazios. Era para te mostrar que dava para ser melhor, que ainda tinha potencial intacto e de sobra para ser usado.
Por mais agressivo que possa ter sido, foi o jeito que encontrei de te dizer que os seus braços eram únicos e seria desperdiço não usá-los em novas direções. Gritei para isso. Gritei para ver se conseguia eliminar suas frustrações, elas deixavam os sonhos minados de palavras negativas e impediam qualquer ideia que quebrasse o esquema “comer para trabalhar e trabalhar para comer.” Eu gritei para acordar seus ideais.
Por mais prepotente que os meus planos pareçam, eu chamei você para me ajudar abrir o embrulho do mundo e sarar com as novidades as feridas ainda abertas. Eu entreguei o mapa, molhado pelo suor das minhas mãos, mas você recusou. Desesperei-me. Apontei com os dedos trêmulos as maravilhas do horizonte, mas você fincou os pés no chão.
Por mais egoísta que eu possa parecer, eu parei para perguntar qual era a vantagem de estar onde estava, mas você não soube me dizer. Então, com o coração aos pulos eu tentei te dizer que você podia ser muito mais do que pensava ser, que era possível crescer, deixar de se diminuir aos problemas passados e se transformar na própria vida pulsante, em vez de apenas um personagem dela. Era possível correr. Correr para fora dos muros dos quases e dos talvez.
Eu tentei explicar...mas você não pode entender. Então eu parti, mas deixei o convite aos seus pés.
Por Natália Oliveira

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Sobre meu lado mediano

Eu assumo meu lado mediano e desde então a gente convive bem. E é um bem para melhor, com leveza e picos de felicidade. Já não há espaço para pressão, mandei-a embora por justa causa. E deixei avisado na portaria: caso ela volte mostre o aviso colado na fachada “não aceitamos comparações”.

Eu sei o tamanho do meu lado mediano, não preciso de dedos apontados para lembrá-lo. Sei que ele é um gigante diante de uma menina, mas ela tem uma vida inteira ainda. E tenho dito: nada de receber caixas de ultimatos e sacos de prazos, um passo atrás do outro, direto para casa e cara nos livros. E pernas na estrada. E mercúrio nos joelhos. E experiências das cicatrizes.

Eu sei o tamanho do meu lado mediano e já preparei o tênis, por isto não me venha com teorias prontas, porque é na margem que eu me encontro. São das pegadas menos exploradas que eu trilho o meu caminho. É sem pressa e nos intervalos que entendo de tudo. É na rua, é no meio, é no cheio.

É na conversa com ilhas, com amigos, comigo. É me carregando às vezes, é me abandonando outras, é me reconhecendo. É no foco da busca, é na direção contrária, é no destino mutável, é na estrada de gente. É ao lado do meu lado, é na direção da minha vida, é na busca dos meus desejos, é na força para vencer os medos. É na certeza do meu mediano, é no perceber das minhas falhas, é na disposição para consertá-las, que eu chego. Eu chego.

Por Natália Oliveira