quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Sem Saber

Entrou pelas janelas da cozinha, provavelmente vindo de outra, e seguiu ao meu encontro no escritório. Encontrou-me despenteada, de pijama e pantufa, digitando comentários em blogs.
Tocava “Canção Para Você Viver Mais”, do Pato Fu. Na tela do computador, uma janelinha do msn piscava. Era um amigo. Visivelmente um amigo. Tudo muito claro para mim, mas não para quem chegasse. E ele chegou. E chegou sem avisar, escondido. Entrou, se aproximou e simplesmente me invadiu, sem pedir autorização ou licença.
Veio com tudo. No impacto perdi a consciência do que fazia, larguei o teclado, soltei a ideia do pensamento e em voz alta me perguntei: “de onde vem esse cheiro de bife acebolado?”. Era tão vivo que pude imaginar o gosto da carne. Ele me entorpecia e agitava minha cabeça, me convidava para sentar à mesa. Se fosse, o que encontraria? Toalha, panelas e litros de refrigerante? Ou alguns pratos rasos já cheios pela comida servida na cozinha? Orariam antes de comer? Ou não? Quantas pessoas estariam? Cinco, seis, sete? Ou menos? Ou mais? Do que conversariam?
Não sei. Ele foi embora e eu fiquei sem saber. Não sei.
Por Natália Oliveira

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Vai continuar sendo assim, não há sentido em outra maneira. Não te obrigo, não te prendo, não te forço. Está livre para onde quiser ir. Se voltar, é porque ainda me guarda, se perder o reencontro, é porque não há mais eu e você. Não há contratos, há apenas o trato de cuidar da leveza e da confiaça que une eu e você.
Por Natália Oliveira

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Quando Matei Aula

Sentadas em uma das mesas da pastelaria, localizada dentro do supermercado, três meninas jogavam “Stop” Dividiam o espaço com mochilas e cadernos, por isso e pelo horário desconfio que matavam aula. Vê-las me fez lembrar da primeira e única vez que realizei a tão sonhada aventura de escapar da matemática. A professora era uma mulher rígida, de corpo roliço e cabelos grisalhos. Usava óculos redondo e um avental “salmão”. Os alunos tinham medo dela, em sua presença reinava um silêncio profundo e atípico para uma sala de 4ª série.
Sofria. Não levava o menor jeito com números e, por sacanagem ou falta de sorte, sempre era escolhida para fazer os exercícios na lousa. Sem ter a menor ideia por onde começar, inventava uma lógica, sempre sem pé nem cabeça, e com as mãos suadas de nervoso rabiscava no quadro. “Claro que estava errado”, ela se alterava. Eu disfarçava como podia o constrangimento, enquanto as maçãs do rosto inflamavam. Ao final de cada aula, ela sempre deixava lição de casa. Com as fórmulas, sentava no chão do meu quarto, apoiava o caderno na cama e nos embalos de colheradas de Nescau tentava resolver os problemas, sempre sem sucesso.
Naquele dia, sabia que não tinha feito os cálculos e que provavelmente seria chamada para resolvê-los. Aproveitei a troca de professores, peguei minha mochila e corri pelo corredor afora. Tinha cinco minutos para resolver o que faria com a minha liberdade. Desci os vários lances de escada e segui para o portão que separava o pátio, da rua. Trancado! Analisei o muro. Não era alto, mas tinha cerca e se eu ficasse enganchada lá? E se chamassem a professora de matemática para me tirar? Quantos exercícios eu teria que fazer para...despertei. Precisava me esconder, antes que alguém me encontrasse!!!
Corri até o banheiro próximo. Entrei rápido, me enfiei em uma das cabines, tranquei a porta, fiquei em pé no vaso e, logo em seguida, me encolhi inteira. Minhas costas encharcavam a camiseta. Cabulava. No auge dos meus 10 anos, eu finalmente cabulava. Era simplesmente genial, tinha escapado de todo mundo e agora cabulava! Independência ou morte! Revolução! Eu era muito evoluída, pensava.
Cinco minutos depois na mesma posição, deixei o banheiro com câimbras, lamentei a ideia e pedi para entrar na aula.
Por Natália Oliveira

domingo, 31 de outubro de 2010

Até firmar os passos

Vai ser assim até firmar os passos de novo. Acostumada com o solo seguro, é difícil imaginar como será o imprevisível. O que se sabe é que o caminho já não é o mesmo, os passos não ficarão marcados como antes e isso a faz pensar que não é capaz de andar. Sente um arrepio na espinha, trava o mapa, gruda os pés na linha de partida. Um novo chão a espera, longo, vivo, uniforme. Ela o recusa. Chuta. Suja os sapatos. A terra levanta grãos em forma de poeira e depois assenta no mesmo lugar.
Pensa, então, voltar para o caminho já percorrido, onde o andar lhe é familiar, mas ao mesmo tempo, sabe que não é feita de retrocessos. No fundo, gosta do embate, porque são eles que a tiram dela mesma. Cospe o pensamento, nega-se. Observa os canteiros, olha bem os refúgios e alimenta a certeza de que se não der, pode correr escondida, camuflada para o topo de alguma árvore. Mas mesmo vendo que os galhos a suportariam, sabe que não é na fuga do embate que elimina os medos. É vivendo-os. Briga consigo por pensar tantas contradições, manda e obedece o pedido de calar a boca.
E cala. Cala os pensamentos, mas o corpo continua a gritar. Suas pernas tremem, o coração empurra o peito pra frente e para trás, gotas de suor escorrem da testa e molham a camiseta. Sente a saliva sumir da boca. Náuseas lhe jogam o estomago para um lado e para o outro, a cabeça parece girar. Tentando equilíbrio lança um olhar aos canteiros, vê bem os refúgios, sabe que pode fugir. Mas não foge. Corre! Corre pelo chão incerto, tropeça, afunda os pés no desconhecido, corta os dedos com pequenas pedras que saltam em seu tênis, mas continua a correr. Até que sua força se esvai, permite-se cair então. Seu corpo toca o chão áspero, tudo lhe dói.
Ajeita-se no desconforto como pode, traz as pernas ao encontro dos seios e chora. Lágrimas grossas vão ao encontro de seus lábios, que ficam salgados. As dores lhe parecem as mais agudas que já sentiu. Com ajuda dos braços arruma as pernas e levanta-se, como bonecos de elástico. Finca os pés no chão. Sente medo, muito medo, mas já sabe que não é a mesma. Leva as mãos ao rosto para conter o suor que lhe molha. As árvores já não lhe parecem tão seguras. Equilibra-se, pega suas forças pelos fios, sustenta a vontade nos olhos e corre certa de que se machucará de novo, mas já não é mais a mesma.
Por Natália Oliveira

sábado, 9 de outubro de 2010

A arte de cobrir os pés

As portas abriram e as pessoas desaguaram na rua. Depois de algumas mulheres, ele desceu com dificuldade as escadas. Andava se equilibrando num esforço visível de se manter em pé. Usava um terno azul marinho bem cortado, gravata em listras. As cores realçavam a pele mulata. Os cabelos eram pretos arrumados em gel. Acompanhei todos seus movimentos com um olhar despretensioso.
Imaginei que estivesse com as pernas machucadas pelo tamanho esforço que fazia ao se locomover, mas a suposição perdeu logo o lugar para a certeza de outra cara. Seus pés estavam parcialmente encaixados nos sapatos, usava-os como se fossem tamancos, com os dedos enfiados até o fundo e o calcanhar de fora. Os pés estavam nus.
Assim que desceu do ônibus, tentando não perder os calçados no meio do caminho, seguiu para o gramado próximo, que separava a calçada do estacionamento da loja de construção. Em meio ao verde, um quadrado de concreto um pouco mais alto do nível da grama destacava, ali ele sentou. Os joelhos flexionados apontavam para o céu, enquanto a calça deixava à mostra as canelas finas.
Nas mãos ele segurava um bolo de pano cinza, que logo se desfez em meias de algodão. Ali mesmo, na calçada, ele vestiu o primeiro pé. A ponta do dedão apareceu num furo discreto. Não havia a menor demonstração de ansiedade em seus gestos, mesmo quando percebeu que eu o observava. Sustentei o olhar por alguns segundos e virei o rosto para rua. Ele, então, voltou à arte de cobrir os pés. Sem acelerar a calma, desamassou e calçou a meia que faltava, também furada. Então mergulhou os pés nos sapatos e se pôs em pé.
Poucos minutos depois dei sinal ao segundo ônibus dos três que pegaria naquela manhã. Entrei, passei a catraca e olhei para aquele todo mundo com cara de sono, de trabalho e de trânsito. Sentei. Apesar do sol de primavera, o vento passava pela janela aberta e batia forte. A franja recém cortada dançava em meu rosto. Gostoso. Fechei os olhos e percebi que algo acontecia em mim. Som de riso. Ouvi. A ausência de elegância daquele homem brincava despenteada dentro de mim.
"A arte alimenta-se de ingenuidades, de imaginações infantis que ultrapassam os limites do conhecimento; é ai que se encontra o seu reino. Toda a ciência do mundo não seria capaz de penetrá-lo."(Loinello Venturi)
Ao artista de pés descalços.
Por Natália Oliveira

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Férias

Queridos da minha vida,
estou em férias!
Logo volto para me encontrar com vocês.
Por Natália Oliveira

Vital

Por mais convicta e ideológica que eu seja, é vital para minha existência um espaço para a dúvida. Preciso – e precisar é além de desejar – deixar um “ou não” caminhar bem do ladinho da certeza absoluta. Dou o meu melhor no que me proponho, mas não me iludo, eu posso renunciar ao meu melhor sonho a qualquer momento por puro prazer de escolher de novo.
Sou capaz de fazer escolhas e defendê-las até a esquina da mudança de ideia, de plano. Por mais decidida e consciente das minhas decisões, não deixo o alimento do meu lado incerto faltar. Ele me ajuda a saber que os ultimatos são perigosos e que devo manter a distância necessária para não me envenenar. Vida é movimento, dizem por ai, e é nele que eu me esbaldo.
Não sufoco as ideias dos meus milhares jeitos e nem repreendo suas vozes, suas existências são tão necessárias quanto o ar. Eles tão vivos em um dos meus lados insistem em abrir a porta do caminho ainda não explorado. Nem sempre sigo suas trilhas, mas a calma inunda só de saber que a qualquer momento posso voltar. E eu volto porque não sou uma, sou muitas e todas querem me trilhar.
Não levo jeito para viver amarguras só por medo de olhar para atrás. Eu vou e volto, subo e desço, giro, me transformo, me encaixo e entro para sair e saio para entrar. Tudo para ver de qual maneira é a minha, é a melhor, é a que vai me agradar. É vital.
Por Natália Oliveira