Mostrando postagens com marcador arte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador arte. Mostrar todas as postagens

sábado, 9 de outubro de 2010

A arte de cobrir os pés

As portas abriram e as pessoas desaguaram na rua. Depois de algumas mulheres, ele desceu com dificuldade as escadas. Andava se equilibrando num esforço visível de se manter em pé. Usava um terno azul marinho bem cortado, gravata em listras. As cores realçavam a pele mulata. Os cabelos eram pretos arrumados em gel. Acompanhei todos seus movimentos com um olhar despretensioso.
Imaginei que estivesse com as pernas machucadas pelo tamanho esforço que fazia ao se locomover, mas a suposição perdeu logo o lugar para a certeza de outra cara. Seus pés estavam parcialmente encaixados nos sapatos, usava-os como se fossem tamancos, com os dedos enfiados até o fundo e o calcanhar de fora. Os pés estavam nus.
Assim que desceu do ônibus, tentando não perder os calçados no meio do caminho, seguiu para o gramado próximo, que separava a calçada do estacionamento da loja de construção. Em meio ao verde, um quadrado de concreto um pouco mais alto do nível da grama destacava, ali ele sentou. Os joelhos flexionados apontavam para o céu, enquanto a calça deixava à mostra as canelas finas.
Nas mãos ele segurava um bolo de pano cinza, que logo se desfez em meias de algodão. Ali mesmo, na calçada, ele vestiu o primeiro pé. A ponta do dedão apareceu num furo discreto. Não havia a menor demonstração de ansiedade em seus gestos, mesmo quando percebeu que eu o observava. Sustentei o olhar por alguns segundos e virei o rosto para rua. Ele, então, voltou à arte de cobrir os pés. Sem acelerar a calma, desamassou e calçou a meia que faltava, também furada. Então mergulhou os pés nos sapatos e se pôs em pé.
Poucos minutos depois dei sinal ao segundo ônibus dos três que pegaria naquela manhã. Entrei, passei a catraca e olhei para aquele todo mundo com cara de sono, de trabalho e de trânsito. Sentei. Apesar do sol de primavera, o vento passava pela janela aberta e batia forte. A franja recém cortada dançava em meu rosto. Gostoso. Fechei os olhos e percebi que algo acontecia em mim. Som de riso. Ouvi. A ausência de elegância daquele homem brincava despenteada dentro de mim.
"A arte alimenta-se de ingenuidades, de imaginações infantis que ultrapassam os limites do conhecimento; é ai que se encontra o seu reino. Toda a ciência do mundo não seria capaz de penetrá-lo."(Loinello Venturi)
Ao artista de pés descalços.
Por Natália Oliveira