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domingo, 31 de outubro de 2010

Até firmar os passos

Vai ser assim até firmar os passos de novo. Acostumada com o solo seguro, é difícil imaginar como será o imprevisível. O que se sabe é que o caminho já não é o mesmo, os passos não ficarão marcados como antes e isso a faz pensar que não é capaz de andar. Sente um arrepio na espinha, trava o mapa, gruda os pés na linha de partida. Um novo chão a espera, longo, vivo, uniforme. Ela o recusa. Chuta. Suja os sapatos. A terra levanta grãos em forma de poeira e depois assenta no mesmo lugar.
Pensa, então, voltar para o caminho já percorrido, onde o andar lhe é familiar, mas ao mesmo tempo, sabe que não é feita de retrocessos. No fundo, gosta do embate, porque são eles que a tiram dela mesma. Cospe o pensamento, nega-se. Observa os canteiros, olha bem os refúgios e alimenta a certeza de que se não der, pode correr escondida, camuflada para o topo de alguma árvore. Mas mesmo vendo que os galhos a suportariam, sabe que não é na fuga do embate que elimina os medos. É vivendo-os. Briga consigo por pensar tantas contradições, manda e obedece o pedido de calar a boca.
E cala. Cala os pensamentos, mas o corpo continua a gritar. Suas pernas tremem, o coração empurra o peito pra frente e para trás, gotas de suor escorrem da testa e molham a camiseta. Sente a saliva sumir da boca. Náuseas lhe jogam o estomago para um lado e para o outro, a cabeça parece girar. Tentando equilíbrio lança um olhar aos canteiros, vê bem os refúgios, sabe que pode fugir. Mas não foge. Corre! Corre pelo chão incerto, tropeça, afunda os pés no desconhecido, corta os dedos com pequenas pedras que saltam em seu tênis, mas continua a correr. Até que sua força se esvai, permite-se cair então. Seu corpo toca o chão áspero, tudo lhe dói.
Ajeita-se no desconforto como pode, traz as pernas ao encontro dos seios e chora. Lágrimas grossas vão ao encontro de seus lábios, que ficam salgados. As dores lhe parecem as mais agudas que já sentiu. Com ajuda dos braços arruma as pernas e levanta-se, como bonecos de elástico. Finca os pés no chão. Sente medo, muito medo, mas já sabe que não é a mesma. Leva as mãos ao rosto para conter o suor que lhe molha. As árvores já não lhe parecem tão seguras. Equilibra-se, pega suas forças pelos fios, sustenta a vontade nos olhos e corre certa de que se machucará de novo, mas já não é mais a mesma.
Por Natália Oliveira

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Medo. Estava confesso.

Medo. Eu estava, confesso.
Desci no terminal de ônibus, como combinamos, há uma hora antes do combinado. Para preencher o tempo fui ao banheiro, acompanhei levas e mais levas de passageiros, li parte do meu livro. Deu tempo para eu me arrepender de gastar o único dinheiro que tinha em bolachas ao invés de pães de queijo. Até que você chegou.
Quando te vi, senti que você trazia o suficiente para você e para mim, por isso, não havia motivos para desistir. Ainda assim, eu estava com medo, confesso. Subimos as escadas próximas e logo estávamos na rua. Já tinham mudado o tom da noite, bem mais escura. Desviando dos desconhecidos, segui suas pernas pequeninas, já tão habituadas com aquele caminho.
A nossa próxima parada era um ponto cheio, de gente, de bancas, de churrasco, de pressa com cheiro de cigarro. Mudamos de cenário, quando um ônibus lotado parou. Nós subimos. Encontramos um espaço dentro do estreito e no ritmo das lombadas travamos uma conversa animada. Há tanto tempo sem se ver, nada melhor do que falar sobre o que a gente escreveu.
O motorista corria e eu, de tempos em tempos, aproveitava para olhar o que me cercava. Não demorou para andarmos sobre aquela paisagem que nada parecia com uma chácara. O ônibus dava nome a um lugar que não existia. O que eu via eram casas e um beco de paredes pixadas, logo o atravessamos.
Saímos em uma avenida, pouco movimentada. Alguns metros mais e chegamos. Percebi que toda aquela ausência de gente, faltava naquele lugar. Redondo, cheio de cadeiras, mesas, livros e sorrisos, percebi que ali tinha música, tinha violão, tinha famílias inteiras. Ali batia um monte de coração. Ali, naquele lugar, era o Zé do Batidão, a sede da Cooperifa.
Atravessamos a multidão e alcançamos um lugar na escada lateral, que tempos depois ficou lotada. Meus olhos passeavam nos rostos, nos jeitos, mas principalmente em tudo. Sentia uma ânsia de engolir aquele clima de paz, uma vontade de gritar para todo mundo que ali tinha mundo. Não sabia explicar a explosão de sentimentos, a surpresa, por isso alguém fez isso por mim. “Quando todo mundo espera bala perdida aqui, a gente faz poesia”.
E a prtir de hoje eu não quero só a minha poesia de muros, de surtos, de preconceitos absurdos. Eu quero a literatura do black, do moleque, da senhora de leque. Eu quero a garra, a fuga das amarras. Eu quero acreditar que dentro do mundo, não existem sub-mundos, existem Raimundos e Edmundos e eles também querem viver.
E ainda que me sobrem impressões maravilhosas, eu me calo. "O silêncio é um prece".

À Dayse, meu pequeno sol e a cooperifa e seus poetas marginais. * Aspas de Sérgio Vaz*

Por Natália Oliveira