quinta-feira, 15 de abril de 2010

Eu Ela Meu

Ela olha o colar e só. É o suficiente para uma sensação boa invadir o peito. O colar no peito alheio invade o seu coração. Coração de criança emocionado ao lembrar dos tempos de escola. Uma flor colorida de lã ou crochê, amarela e azul. Flor pendurada por bolinhas lembrando douradas, muitas, colar comprido, flor baixa.
Ela olha, de repente. A mulher no balcão ao lado, o vidro separa o que é eu do que é ela. Ela nem olha na verdade, conversa com outra. Ela eu que olha. E olha por que quer algo para ver, mas de repente encontra uma florzinha de lã ou crochê, amarela e azul. Nem sabe porque, mas ali tem escola.
E se tem escola tem paz que invade o peito do coração alheio. Alheio meu, ao menos. Alheio eu ela meu. Uma florzinha de lã ou crochê no preto da blusa dela, nos castanhos dos olhos meus rouba tudo e devolve a paz de tempos que um dia foram meus. Eu ela meu. Ela o olha o colar e só eu. E quando pensa em perceber, some com tudo que era meu. Onde está o eu ela meu?
Por Natália Oliveira

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Para onde vão as promessas?

Esperei que se servissem. A máquina de refrigerantes estava bem ao lado da saída e como estavam em duas bloqueavam a passagem. Ao passo que uma enchia o copo, a outra ouvia a resposta da amiga à sua pergunta. “Não como hambúrguer até o final da outra semana, porque vi um motoboy atropelado e prometi a Deus que se ele vivesse faria isto” “E como saberá se ele viveu?” “Vou fazer sem saber”.
Saímos à procura de mesas, eu encontrei uma vazia do lado esquerdo do salão, elas ocuparam as últimas duas cadeiras, já reservadas, por alguns conhecidos, atrás de mim. A história do motoboy caído e a promessa pela vida dele foi replicada aos que não sabiam e o assunto logo mudou.
Saboreando o peixe ao molho branco, sozinha, pensei. Interessante esta história de promessas. Promessa na concepção popular é se privar de algo a favor de outra coisa. Numa linguagem mais clara é sacrifício. A menina se priva de hamburguês e em troca Deus preserva a vida do motoboy. Solidário. Mas que Deus é este? O Deus que eu conheço, que eu experimento em graças diárias é bem maior que isto.
Uma mordida na Ana Carolina para descer o pensamento. Não acredito num Deus sádico, que só ouve orações depois de um bom sacrifício. Qual a importância dos meus chocolates nas obras de Deus? O que Ele fará com eles, ou melhor, qual o resultado de uma abstinência de cacau para a corrida do mundo?
Religião só faz sentido quando muda a sua vida e por meio dela a do outro. No lugar de subtrações, somemos. Já pensou se ela tivesse prometido curtir cada minuto com os amigos, sem se importar se são iguais ou diferentes, sem fazer de pequenas coisas motivos grandiosos para brigas, porque viu um motoboy atropelado e gostaria que ele vivesse. E a amiga perguntaria como saberia se ele viveu e ela diria que não saberia, mas que ele a lembrou o quão frágil é a vida e por isto faria tudo para amar antes que não desse mais tempo.
Sacrifícios são solidários, atos de fé e merecem meu respeito, mas motoboys continuam morrendo e o amor se esvaindo.
Pensemos...
Por Natália Oliveira

quarta-feira, 31 de março de 2010

No Nosso Eu

Para tirar a paz da minha vida, só coisas maiores que ela.
O meu direito de ver é do mesmo tamanho do seu e viva a diversidade de várias janelas, dum lado eu, doutro você. Eu te conto o que sei e você o que aprendeu. E nesta ida a vida do nosso caminho alargou. Maior que eu e você..
Enquanto houver céu...
Por Natália Oliveira

terça-feira, 23 de março de 2010

Aos olhos de vocês

Natália vem do latim, significa nascimento. Nascimento da minha prima que veio antes e ganhou o Talita. Ficou para mim o Natália, do livro dos nomes comprado às pressas. Nem por isto menos quisto, menos bonito, aos olhos de minha mãe.
Desci do ônibus e, assim que os prédios me deram licença, admirei o céu que se mostrou azul, extenso, bonito. Limpo e iluminado pelos raios do sol que chegavam em meus braços pelados pela blusa sem mangas. Atravessei a loja de construção e antes de dobrar a esquina tentei ouvir o barulho do ônibus, que não estava ali. A espera, mergulhei nas linhas de um livro, que me confessava Notícias do Planalto, algo sobre Collor.
O motor soou próximo.
Era ponto final e do transporte duas senhoras desceram. Atrás delas um senhor de meia-idade, pele morena e menina no colo. A menina vestia uma blusa branca, uma calça de moletom laranja e uma fralda. Seu rosto era infantil contornado por cabelos ondulados, castanhos de tom escuro, curtos. Não lembro ao certo de seus olhos, mas pude percebê-los perdidos em outra dimensão. Sua boca era boba e deixava a saliva cair.
Assim que chegaram ao chão, a primeira - de cabelos pretos longos e corpo magro - se aproximou, deixando que o homem desamparasse a menina. Com uma das mãos segurou o tronco mole da menina e lhe secou os lábios molhados, dizendo à fila que o motivo das pernas desobedientes era a bebida, disse isto se afastando da garota e permitindo que ela caísse em seus braços. A brincadeira desenhou um sorriso alegre no rosto das duas. Das duas.
A mulher então abraçou novamente a menina pelas costas e num suspiro disse “Temos que pegar mais duas conduções, Natália”. Seguiram as duas, juntas, pela calçada. Cúmplices, sozinhas. A menina ensaiava passos com a firmeza dos pés da mulher, que andava no ritmo da menina. A saliva descia, eram quase do mesmo tamanho. Natália.
Natália vem do latim, significa nascimento. E ai eu fiquei pensando quantas vezes você nasce para ela e ela para você. Natália vem do latim, significa nascimento. Nem por isto menos quisto, menos bonito, aos olhos de vocês.
Por Natália Oliveira

terça-feira, 16 de março de 2010

Esquina da solidão

Vira e mexe encontro com elas e suas cores. Cabelos alinhados com presilhas de plástico, brincos de argola, esmaltes, decotes cortados a favor da mostra dos seios, quase sempre caídos. Sandálias altas sustentam os corpos roliços ou magros demais. As roupas normalmente são grudadas, coloridas, destoantes de peça para peça.
A maioria delas traz um maço de cigarro no bolso e dentes amarelos contornados por lábios vermelhos. Os olhos pintados mexem em companhia de sobrancelhas finíssimas no ritmo de um desejo camuflado de gente que quer gente do lado. Gente que olhe, que admire as horas a mais na frente do espelho.
Nosso encontro é quase sempre atrás de caixas de dinheiro, ao lado de catracas de bilhete único. Na volta para casa, nos bares de noites tomadas por rala coxas e sorrisos fáceis de cerveja. Me chamam atenção quando explodem em gargalhadas seguidas de histórias que sempre tem cunhados e filhos, no percurso as mãos sempre balançam de um lado para o outro.
São mulheres da vida dos ônibus, dos pontos deles, dos rostos de linhas que desenham o nosso país. São mulheres de desejos que gritam a esquina da solidão e que encontram nas cores das roupas, dos batons e dos esmaltes algo que atraia para a próxima parada que tem coração.
Homens reparem a beleza na falta dela, é pensando em vocês.
Por Natália Oliveira

terça-feira, 2 de março de 2010

Pro alto

A gente discutia distribuição de renda, periferia, carro blindado. A gente discutia barreiras invisíveis, intransponíveis, elite. Pobreza, casa no Morumbi, favela logo ali. É culpa! Culpa de quem tem muito e não divide. É mais que obrigação abrir a mão, tem muito o que custa? Custa o preço da mesa sem pão, custa a escola do menino que não teve educação e da menina que foi para a prostituição sustentar o teu vício, cidadão! O teu vício de segurança que não segura nada. A sua insegurança que brota em mentes erradas e que no final derrama, patrão. É obrigação abrir a mão.
Obrigação? O problema está na base, o problema é educação. Sem ela não tem dinheiro que resolva, não há elite que transforme, que mude, que construa. O problema é a educação que não mostra opção, que não abre a cabeça do cidadão. Filho, meu amigo, não se sustenta só com água e pão, tem que ter educação. Mãe, pai e comunhão. União na luta por um cidadão, é a vontade que surge na ação. Age! Olha pro prédio alto e para de dar tiro pro lado. Age. Porque na elite também tem ganha pão. A obrigação não é abrir a mão, é o governo investir em educação. Assistencialismo, de uma vez por todas, não.
Distribuição, periferia. Barreiras invisíveis, intransponíveis, elite. Pobreza, Morumbi, favela logo ali. É culpa! É? Culpa do privilegiado da boa geração? Ou do que não se contenta com a pobre situação? Culpa de quem? Do que herdou costumes de uma boa tradição? Ou daquele que luta para manter arroz, farinha e feijão? É culpa! De quem? É culpa! De quem? Quer saber? Pro alto o pão, o arroz e o feijão. Pro alto a educação, a vida boa e a mansão. Pro alto. Pro alto. O que falta é compreensão. Compreensão. O que falta é a elite entender qual é a dor da barriga que clama por pão, o que falta é a miséria ver a cor da solidão numa mansão.
O problema é educação. Numa sociedade igual a nossa, heroi é vítima e vilão. Compreensão.
Por Natália Oliveira

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Ainda Mais de Você

Tenho me divertido com seu jeito de achar saudade em tudo. Até no que não viveu. Mal sabe como era dura aquela época, ditadura, censura, violência. E eu já te falei que hoje você pode ouvir boas músicas e dizer o que pensa sem pagar o preço pela escolha, mas você insiste que gostaria. Fala que sentiria na veia o gosto de quem não passa em branco pela vida.
E mesmo quando digo que sua liberdade de pensar teria consequências, você me diz que adoraria ouvir a batida dos corações parceiros ao pintar o rosto de verde e amarelo. Fala que trocaria suas bonecas por um tempo, por uma faixa e um xarope para garganta.
E os seus conselhos? Não canso de te perguntar de onde tira. Afinal, mesmo que quisesse, não experimentou uma vida inteira, então como tem resposta e jeito para tudo? Você me faz rir, sabia? Às vezes parece ser dona do mundo, da verdade e mesmo quando compra sonhos malucos sempre vende sem esforço, a preços baixos, mas com juros que transformam.
E quando vejo em você alguns pedaços da criança que foi me ponho a pensar. "Sorte daqueles que conheceram sua banguela." Contemplaram um sorriso ainda mais alto, vazado pela falta de dentes. E imagino o quanto era gostoso ouvi-lo, porque te rendeu um apelido, né? Sorriso. Ter apelido assim é bem bonito.
Eu só sei que tenho gostado ainda mais de você. Tenho gostado mais do que gostei, quando pensei que gostava demais. Gostado de olhar para você e ver como você gosta ainda mais de você.
Natália Oliveira