domingo, 20 de junho de 2010

Diá rio

A noite estava fria, mas quando a encontrei ainda não chovia. Estava de branco e apesar do frio vestia blusa sem mangas. A regata trazia uma data, destas roupas que compramos perto do ano novo, só não consigo me lembrar o ano. As pernas tinham a mesma cor do resto do corpo, um branco quase amarelo, típico de quem não vê o sol há tempos. Sem destaque algum, usava um shorts de tecido fino, justo e curto que puxado marcava a intimidade.
Era domingo, mais de dez. Passávamos por lá por pura diversão. Numa travessa bem iluminada, estava sozinha com fones no ouvido. Decidimos aproveitar. Quando paramos o carro ao seu lado, encurvou o corpo em direção à janela aberta, os cabelos negros, visivelmente alisados do meio para baixo, acompanharam o movimento e foram levados num gesto lento para atrás da orelha. No topo da cabeça os fios sem química cresciam livres, deixando um armado inevitável.
À primeira pergunta respondeu sem constrangimento. “É R$50”. À proposta seguinte respondeu tímida, num sorriso largo. “Não, eu tenho vergonha. Muita gente! Vocês têm mulheres lindas ai com vocês. Vou não, vou não”. Para falar a verdade, nem a gente ia, passávamos por lá por pura diversão. Aceitamos a negativa como uma forma de sair, mas não antes de saber que morava em Jundiaí, sozinha. No trabalho até 00h00 e nem sempre por ali. Foi com a mesma alegria que perguntou e soube de nós também.A despedida foi marcada por lembranças de Deus. “Fica com ele, você também”.
Nela existia uma doçura acentuada, ainda não perdida pelo amargo do asfalto. Algo que motivava um desejo de cuidar, de sentar à mesa pra comer e conversar. Algo diferente no rosto miúdo, olhos puxados em tons claros. Diferente. Passamos por mais algumas ruas, comentamos o encontro e desde então pensei nela alguma vezes. Onde estaria neste momento? Penso. É dia. Se pudesse ser herói certamente tiraria desconhecidos do corpo dela e traria a sua boca o gosto do dia.
Por Natália Oliveira

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Alimenta de que?

Vestia um uniforme azul marinho. O nome da empresa vinha num branco discreto no peito, lado direito. Era igual a todos os outros da equipe de limpeza, gola em v, mangas curtas, botões na frente. Ele, porém, nunca tinha visto ali. Ou melhor, nem ali, nem nos corredores, na saída ou entrada de banheiros, no pátio. Nosso primeiro encontro acontecia naquele momento, no refeitório.
Diferente dos outros dias, todas as mesas estavam ocupadas. A máquina de refrigerante exigia paciência e uma fila extensa separava os recém-chegados da prateleira com bandejas, pratos e talheres. A bancada com o cardápio, construída no centro do salão, estava repleta de pessoas dos dois lados. Enquanto se serviam, dois homens brincavam com a quantidade de comida que um deles colocava no prato. “Tô em fase de crescimento”.
Em toda a extensão do local, indecisos andavam de um lado a outro e acabavam por parar nas filas do fundo, onde serviam opções mais lights e gordurosas. A mulher de cabelos pretos, rebeldes e com luzes passava pelas minhas costas e lamentava a escolha do horário. “Devia ter descido mais tarde”.
A fila andou e dei espaço para o próximo pegar salada. Os tomates estavam vermelhos e a rúcula verdinha. Esperava pelo arroz quando alguém atrás de mim falou alto. “Hei, isto não é sopa!”. Foi a primeira vez que o vi. Estava parado, estático. As pessoas o olhavam. Ele segurava uma cumbuca de porcelana e nela tinha molho de salada. Tomado de vergonha o homem contorceu os lábios, deixando à mostra os dentes mal cuidados. Vestia um uniforme azul, igual a todos da limpeza.
O refeitório estava cheio. Num gesto de nítido desespero levantou a porcelana da bandeja e sem saber o que fazer retornou-a no mesmo lugar. Percebendo o movimento, uma das atendentes recolheu a louça e pediu para que ele pegasse uma outra, limpa. Ele foi, eu sai em busca de uma mesa. Sentada o vi passar com o prato vazio, depois de alguns instantes. Olhei para os seus olhos numa tentativa de lhe dar conforto, ele só olhava para frente, parecia com pressa.
Por Natália Oliveira

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Pérola Negra

Desci do ônibus e você tava lá, sentado. Mas antes mesmo do motorista abrir a porta já te via, você não, ainda. Me aproximei e perguntei de você a você, sua resposta foi linda como a outra, um sorriso aberto de afastar os dentes, todos marrons. Sem palavras você esticou o braço, fui ao seu encontro e ganhei um presente estalado, gostoso. Estiquei as costas, mas você me chamou de novo, curvei o tronco e com leveza você juntou o meu rosto ao de sua “mama”. Ela abriu os lábios num sorriso, faltava um dente, mas era incrivelmente bonito, como o seu. Sorrimos os três. Atravessei a rua e antes de me entregar a corrida de atraso, olhei para o lado, você abria os braços pedia um abraço.

Certa vez ouvi dizer que a vida é um mosaíco, gosto da ideia e busco organizar as minhas peças. Algumas encontro em mim, outras em minha família, outras nos meus amigos, mas há aquelas que exigem mergulho e disposição para encontrá-las, não são vistas diariamente, é preciso treino, desprendimento. Ainda assim, viver sem elas é como pegar uma concha e se perder em suas cores, sem ao menos notar a beleza da pérola.

Por Natália Oliveira

segunda-feira, 31 de maio de 2010

"Nós não somos homens e mulheres viajando por um deserto sem água, nós somos homens e mulheres viajando por uma fonte de água doce e estamos morrendo de sede." Ricardo Gondim.

Por Natália Oliveira

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Sapato Apertado

Às vezes angustia. É como precisar calçar um sapato que não lhe cabe mais. Sentir o couro lhe estourar bolhas, rasgar a pele, manchar a meia de sangue e ainda assim persistir, continuar caminhar. É como sentir que tudo se resume ao apertado, ao pequeno, ao impróprio demais. É como se de repente o sol de dentro saísse rua afora e se escondesse em algum lugar jamais conhecido.
Às vezes angustia. Na imensidão do mundo, ainda me falta espaço. Conhecimento tem hora que prende asas, sufoca. Há momentos que, mesmo diante de tanto chão, muros de notícias me coagem, me espremem, me aprisionam. Assustam! Então, tudo que desejo é lavar a alma. E a água vem. De enxurrada, de várias fontes-faces. É um cenário dolorido, é como ver o coração partido, ver o amor jorrar. Sofrido.
O silêncio cala a alma contrita. Coisas profundas dificilmente alcançam à superfície.
Subi no ônibus e logo mergulhei na primavera de Clarissa. Pétalas amarelas, azuis. Um piano de fundo, uma música sem coesão a tocar, o avião a cortar o céu. Uma conversa infantil, doce, insistente. Fechei o livro. A voz suave continuava a falar, olhei para o lado. Parecia uma pintura. Olhos redondos, negros e vivos, num rosto marrom forte. Perguntava coisas do mundo à mãe. Não tinha mais do que quatro anos.
Voltei a ler, ele a falar. Espichei o pescoço, desviando da mulher recém-chegada, lá estava ele grudado na janela. Voltei à Clarissa. Minutos depois percebi que minha cabeça não estava mais ali, guardei a companhia da menina dentro da bolsa. Ele olhava atento cada gesto meu. Sorrimos. Os dentes pequeninos e alinhados brincavam com um chiclete e ao mesmo tempo afastavam as bochechas num alargar de lábios. O retrato era, certamente, uma poesia. Meu coração acalmou.
Coisas profundas dificilmente alcançam à superfície, mas há quem encontre o sol em terrenos inférteis e oferte aos carentes de alegria.
Conhecimento tem hora que prende asas, mas agora eu posso buscar a ]ausência dele em sua poesia.
Por Natália Oliveira

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Ao contrário de

Eu subia já descalça, com as sapatilhas nas mãos. A calçada do condomínio massageava os meus pés cansados, enquanto a tarde caia de um jeito bonito. O tempo estava fresco, confortável, o céu azul, sem nuvens. Da viagem do ônibus até cruzar o portão, já fazia planos: chegar em casa, deixar a cabeça em silêncio e desfrutar da minha companhia. Delícia! Enfim, sexta- feira.
Já perto do meu prédio, ela me encontrou. Óculos redondos, bolsa pequena nos ombros, cabelos acinzentados e histórias da neta para contar. Éramos vizinhas, há algum tempo, e sempre que podia, fugia dela. Justificável ou não, a maioria fazia. Atrasos, trabalho, compromissos inadiáveis, urgentes nada a convencia parar de falar. Ela sempre dava um jeito de segurar seu braço, a porta do carro, a conversa. Era desesperador, às vezes.
Quando a encontrava no elevador, esperava que escolhesse uma das portarias e fazia o mesmo, escolhendo a contrária. Para não agir com falta de educação, preferia evitá-la. Eu tinha horários e tudo que ela tinha a dizer não cabia em menos de 40 minutos. Eram discursos sobre a família de cientistas, sobre a nova síndica, sobre a vida em São Paulo, sobre mercado de trabalho. Não tinha Jeito.
A última vez que nos vimos foi neste sábado, quando eu saia para trabalhar. Descia os degraus do prédio em direção à garagem, quando ela me encontrou. Antes que eu pudesse continuar, ela me segurou pelo braço me envolvendo num abraço forte, fraternal. Sem afrouxar os braços, disse que ia se mudar e deixava comigo “toda sorte do mundo”. Ao contrário de todas as outras vezes, foram estas as únicas palavras que disse. Ao contrário das outras vezes, eu queria que tivesse falado, que tivesse me feito ficar.
Um aperto no peito, deu saudade.
Por Natália Oliveira

sexta-feira, 14 de maio de 2010

As Ruas Falam

"Às vezes, em nossa profissão, você não precisa fazer perguntas. Basta ir às ruas e olhar as pessoas. E ai que você descobre a vida como ela é realmente vivida"
Por Gay Talease