Por Natália Oliveira
Por Natália Oliveira
O refeitório estava cheio. Num gesto de nítido desespero levantou a porcelana da bandeja e sem saber o que fazer retornou-a no mesmo lugar. Percebendo o movimento, uma das atendentes recolheu a louça e pediu para que ele pegasse uma outra, limpa. Ele foi, eu sai em busca de uma mesa. Sentada o vi passar com o prato vazio, depois de alguns instantes. Olhei para os seus olhos numa tentativa de lhe dar conforto, ele só olhava para frente, parecia com pressa.
Por Natália Oliveira
Desci do ônibus e você tava lá, sentado. Mas antes mesmo do motorista abrir a porta já te via, você não, ainda. Me aproximei e perguntei de você a você, sua resposta foi linda como a outra, um sorriso aberto de afastar os dentes, todos marrons. Sem palavras você esticou o braço, fui ao seu encontro e ganhei um presente estalado, gostoso. Estiquei as costas, mas você me chamou de novo, curvei o tronco e com leveza você juntou o meu rosto ao de sua “mama”. Ela abriu os lábios num sorriso, faltava um dente, mas era incrivelmente bonito, como o seu. Sorrimos os três. Atravessei a rua e antes de me entregar a corrida de atraso, olhei para o lado, você abria os braços pedia um abraço.
Certa vez ouvi dizer que a vida é um mosaíco, gosto da ideia e busco organizar as minhas peças. Algumas encontro em mim, outras em minha família, outras nos meus amigos, mas há aquelas que exigem mergulho e disposição para encontrá-las, não são vistas diariamente, é preciso treino, desprendimento. Ainda assim, viver sem elas é como pegar uma concha e se perder em suas cores, sem ao menos notar a beleza da pérola.
Por Natália Oliveira
Às vezes angustia. É como precisar calçar um sapato que não lhe cabe mais. Sentir o couro lhe estourar bolhas, rasgar a pele, manchar a meia de sangue e ainda assim persistir, continuar caminhar. É como sentir que tudo se resume ao apertado, ao pequeno, ao impróprio demais. É como se de repente o sol de dentro saísse rua afora e se escondesse em algum lugar jamais conhecido.
Às vezes angustia. Na imensidão do mundo, ainda me falta espaço. Conhecimento tem hora que prende asas, sufoca. Há momentos que, mesmo diante de tanto chão, muros de notícias me coagem, me espremem, me aprisionam. Assustam! Então, tudo que desejo é lavar a alma. E a água vem. De enxurrada, de várias fontes-faces. É um cenário dolorido, é como ver o coração partido, ver o amor jorrar. Sofrido.
O silêncio cala a alma contrita. Coisas profundas dificilmente alcançam à superfície.
Subi no ônibus e logo mergulhei na primavera de Clarissa. Pétalas amarelas, azuis. Um piano de fundo, uma música sem coesão a tocar, o avião a cortar o céu. Uma conversa infantil, doce, insistente. Fechei o livro. A voz suave continuava a falar, olhei para o lado. Parecia uma pintura. Olhos redondos, negros e vivos, num rosto marrom forte. Perguntava coisas do mundo à mãe. Não tinha mais do que quatro anos.
Voltei a ler, ele a falar. Espichei o pescoço, desviando da mulher recém-chegada, lá estava ele grudado na janela. Voltei à Clarissa. Minutos depois percebi que minha cabeça não estava mais ali, guardei a companhia da menina dentro da bolsa. Ele olhava atento cada gesto meu. Sorrimos. Os dentes pequeninos e alinhados brincavam com um chiclete e ao mesmo tempo afastavam as bochechas num alargar de lábios. O retrato era, certamente, uma poesia. Meu coração acalmou.
Coisas profundas dificilmente alcançam à superfície, mas há quem encontre o sol em terrenos inférteis e oferte aos carentes de alegria.
Conhecimento tem hora que prende asas, mas agora eu posso buscar a ]ausência dele em sua poesia.
Por Natália Oliveira
Por Gay Talease