É a paz que às vezes se apodera da minha alma.
Com os dentes recém-caídos ela desenha um sorriso enquanto eu tento descobrir o que carrega nas mãos sujas de chocolate e terra. Aperta os dedidinhos mostrando, sem perceber, que ali nada sobreviveria, mas nego acabar com o momento. Chuto coisas absurdas: “carro?”, “bola?”, “patins?”. Ela arregala os olhos a cada tentativa e balança a barriguinha que nunca viu chuchu, numa risada de último volume que me desarma inteira. Solto as últimas coisas que prendem a alegria e digo em voz alta: “viver é breve e é bom, né?”. Ela olha meus olhos marejados e abraça com os dedinhos melecados de marrom minhas pernas. Observo-a de cima. Cabelos embaraçados, calça levemente surrada, coração pulsante e falta de vontade de controle. Agacho, estonteante ela pede para ficar. Arrumo um espaço no centro de tudo e ela, com o sorriso aberto, me pede: "me acolha para sempre e me chame de paz. Sua paz”.
Ao Criador da minha!
Por Natália Oliveira
E eu chegou aos 24 anos em paz e de pazes comigo. Feliz por ter vivido coisas tão bonitas. Nem sempre sem pontas ou asperezas, mas bonitas pq. de uma forma ou de outra me somaram peças ao quebra-cabeça que formo. Chego aos 24 anos com o coração aos pulos, com as mãos tremulas e com os gritos, chamados pelos amigos de sindicais. huahuahuaauhahuhua. E eu dou risada alto e agradeço a Deus pelos amigos. Meus presentes diferentes, pulsantes, alegres e fundamentais para toda e qualquer caminhada que trilhei e que ainda vou trilhar. Chego aos 24 anos quebrando qualquer ideia de inferno astral, de depressão do ciclo novo, de tristeza sem nome. Chego FELIZ da forma mais genuína e verdadeira que me cabe. Feliz pq. apesar de louco e angustiante, algumas vezes, viver, no sentido mais literal que isso tem, é uma das coisas mais gostosas que já experimentei. E eu sou grata a Deus por ter me dado o dom da vida, por caminhar ao meu lado e somar ao nosso grupo pessoas maravilhosas!
Enfim, FELIZ!
Um brinde às nossas vidas.
Por Natália Oliveira
Passados 14 dias do ano novo, digo: 2010 foi um ano bom. Consegui olhar para dentro de mim mais de uma vez e dessas visitas ao interior nunca voltei de mãos vazias. Em uma delas trouxe as armaduras usadas diante de pessoas tão frágeis quanto eu. Trazê-las à margem me custou um pouco, eram pesadas e machucavam meus braços, mas mesmo assim, bravamente – ainda que no momento me sentisse fraca– persisti.
Jogá-las no lixo não me pareceu difícil, doloroso mesmo foi perceber que, mesmo com o corpo nu e sem estoques, ainda carregava na pele a proteção. Arrancá-la encharcou meu vestido de lágrimas e o meu coração de vazio. Por um tempo, que me pareceu infinito, senti o chão desprender dos meus pés, mas sobrevivi com toda a humanidade que me cabe, caindo, ralando os joelhos e curando-os com merthiolate e band-aid.
Hoje consigo resistir às capas de super-herói, mesmo quando estão em liquidação, e mandar meus pensamentos acusadores para uma colônia de férias, quando passarem dos limites. Posso ouvir meus gritos internos, mesmo quando o barulho exterior é alto e me respeitar, mesmo quando o mundo prefere nomear esse gesto de egoísmo. Consigo me enxergar claramente, sei das minhas rosas, mas também reconheço meus espinhos e é nesse bosque que passeio em busca de respostas para a minha doce, cítrica, confusa e pulsante existência.
Por Natália Oliveira
É a hora da travessia, de pegar as rédeas, de mudar o destino, de acreditar no novo dia que vem. E ele vem. Ele vem para os que acreditam e caminham na direção de novos horizontes. Que não esperam, que não só desejam, mas que buscam! Um lamento aos obstáculos, já vesti meus pés.
Por Natália Oliveira
Por mais dor que carregasse, foi um gesto enraizado no amor. Um convite que fiz do melhor jeito que encontrei. Um chamado para termos uma vida diferente da vivida e um pouco sofrida dos nossos pais. Não era para ser diferente por capricho, mas por uma vontade de não se acostumar com os vazios. Era para te mostrar que dava para ser melhor, que ainda tinha potencial intacto e de sobra para ser usado.
Por mais agressivo que possa ter sido, foi o jeito que encontrei de te dizer que os seus braços eram únicos e seria desperdiço não usá-los em novas direções. Gritei para isso. Gritei para ver se conseguia eliminar suas frustrações, elas deixavam os sonhos minados de palavras negativas e impediam qualquer ideia que quebrasse o esquema “comer para trabalhar e trabalhar para comer.” Eu gritei para acordar seus ideais.
Por mais prepotente que os meus planos pareçam, eu chamei você para me ajudar abrir o embrulho do mundo e sarar com as novidades as feridas ainda abertas. Eu entreguei o mapa, molhado pelo suor das minhas mãos, mas você recusou. Desesperei-me. Apontei com os dedos trêmulos as maravilhas do horizonte, mas você fincou os pés no chão.
Por mais egoísta que eu possa parecer, eu parei para perguntar qual era a vantagem de estar onde estava, mas você não soube me dizer. Então, com o coração aos pulos eu tentei te dizer que você podia ser muito mais do que pensava ser, que era possível crescer, deixar de se diminuir aos problemas passados e se transformar na própria vida pulsante, em vez de apenas um personagem dela. Era possível correr. Correr para fora dos muros dos quases e dos talvez.
Eu tentei explicar...mas você não pode entender. Então eu parti, mas deixei o convite aos seus pés. Por Natália Oliveira
Arrumei meu guarda-roupa nesse final de semana. Não que fizesse muito tempo desde a última organização, mas a bagunça parecia enraizada. Sempre que abria uma das portas um potinho de alguma coisa caía em meu pé. O dedo latejava e eu prometia: “amanhã eu arrumo”. O mesmo ritual quase todos os dias.
Acabei encarando a tarefa no sábado, logo depois de acordar. Tomei alguns goles de café com leite e deixei a mesa, prometendo uma conversa mais tarde com a minha mãe. Meu quarto estava iluminado pelo sol primaveril.
Joguei todas as roupas em cima do lençol verde florido e comecei. Comecei por achar blusas que não me serviam mais, mas que a ausência de coragem não tinha me permitido doar.
Eram curtas, apertadas e estagnadas em gostos antigos. Não me cabiam mais, mas eu as conservava, porque um dia me couberam. Era medo de deixar o que um dia foi agradável. Medo de reconhecer os ciclos, o fim.
Era medo de descartar o número. Era mais fácil deixá-las por último, do que não deixa-las ali. Era difícil não pensar nos momentos em que me aqueceram ou me livraram do calor. Era apego do mais real e do mais vazio. Eram só roupas. Ou não? Eram lembranças de pessoas que já não estavam mais, o fio da lembrança se segurava nas linhas, na cor. Mas era lembrança? O vivido tinha ido, tinha vivido do jeito bonito que conseguiu e foi embora. O dono cresceu. Não cabia mais, era hora da despedida. Em duas levas deixei tudo para doação. Voltei ao meu quarto iluminado pelo sol primaveril e reorganizei o que ainda fazia parte de mim, o que ainda me cobria por inteiro, que não me exigia contorções ou falta de ar.
Antes de fechar as portas, olhei tudo. Vazios estavam espalhados em vários lados. Empurrei a maçaneta e caí na cama satisfeita, melhor os vazios a preencher, do que sobras enganosas. Melhor! 
Por Natália Oliveira
É me carregando e me empurrando às vezes...
Tenho me pesado ultimamente. Não as gorduras, mas as bagunças internas que tenho para arrumar. Faz muito tempo que não mexo nelas, o excesso de coisas externas me ausentaram desse quarto de existência, aliás já deve beirar um sexto, sétimo. Não que eu tenha deixado de visitá-lo, eu até chegava a adentrá-lo, mas no cansaço jogava tudo para o lado e me aconchegava no descanso da beirada.
Esses dias, porém, me deram um ultimato: ou aparecia ou a leveza e o amadurecimento iriam embora. Sem saída, parei na frente do monte que me impedia de continuar sem pesos e aos poucos avancei. Abri caixas e enxerguei falhas passadas em cima de antigos palavrões. Portas quase abertas, esforços incompletos, limites não ultrapassados, quases. Abri as pastas e derrubei todo material no chão. Incertezas, dúvidas, dívidas, medos caíram aos meus pés.
Encontrei palavras desfeitas, contratos, desculpas. Olhei cada detalhe de tudo que pudia, frente e verso, cima, baixo. Achei alguns problemas resolvidos, mas remoídos na falta de outros assuntos. Enchi as mãos e rasguei todos. Os picados sumiram, deixando um gosto de riso e um degrau. O amadurecimento prometido acontecia. Continuei na ordem da desordem cada vez mais leve.
De repetente tropecei em uma vitória intacta. Soprei o pó que a cobria e lembrei do dia que a conquistei. Sempre a quis, mas não comemorei porque estava ocupada demais pensando nas coisas que o meu empenho máximo não tinha conseguido fazer. Dessa vez a abracei, pulei com ela e ri alto. Dancei sozinha. Ou melhor, com ela. Na coreografia inventada, gritamos alegrias, mandando embora todos os dedos apontados, constrangidos eles foram e não voltaram mais.
As latas de lixo já estavam cheias e a desordem bem menor, quando me deparei com sacos pretos. Avancei sobre eles e vi que estavam tomados por coisas que fizeram meu coração doer. Por impulso, arranquei tudo lá de dentro e com raiva pisoteei, não quebrou. Trouxe para perto do peito e tentei partir em vários pedaços, mas quanto mais colocava força, mais resistente e áspero ficava. Minhas mãos doíam e o sangue pulsava. Aquilo tudo não me permitia descarte. Nem sinal de gosto de riso e nem degrau.
Lágrimas rolaram. Sentei cansada, fechei os olhos, respirei fundo. No silêncio profundo os degraus me convidaran, obedeci. De cima percebi que os sacos eram menores que pareciam e o inquebrável não passava de proteção. Era preciso valer a pena ter sentido a dor, se a eliminasse antes do fim, se estilhaçaria e ficaria incolável, ganharia, então, o nome de fracasso . Não podia interromper o curso dos desesperos, das lacunas e dos excessos somados, eles eram necessários, precisavam ser vividos intensamente até perderem a cor.
Então o descarte chegaria junto com o gosto de riso e o novo degrau no momento certo. Com eles eu alargaria os lábios e cresceria mais um pouco, as coisas mudariam de tamanho, de temor, amadureceria. Enquanto isso não acontecia, era preciso respeito ao curso da vida.
É me entendendo e amando outras...
Por Natália Oliveira