terça-feira, 5 de julho de 2011

Ali

E naquele exato momento sentiu que tudo que precisava aprender sobre a vida estava exatamente ali, naquele instante preciso. Tudo moldado em um pedaço de madeira, como um porta-retrato: suco de maracujá, pães torrados e mortadela. Tudo misturado em um em uma única pose, em um único gesto.

Tudo exatamente ali: pai, mãe e ela.

Por Natália Oliveira

sábado, 28 de maio de 2011

Bailarinas


Ela arrumou o travesseiro dobrado embaixo da cabeça e olhou para a janela que, naquele momento, era metade cortina, metade fim de tarde. O sol aparecia tímido e frio atrás do prédio da rua vizinha e o céu azul se enrolava nas nuvens brancas em uma cumplicidade bonita. Sem desviar o olhar, puxou os cobertores para os ombros e sorriu para o que via.
Nunca foi de elogiar dias de inverno, mas sentia que, de uma forma coletiva, a criação se empenhava em experimentar o melhor que sabia, por que ela a contemplava. Como o ator que depois de tantos convites fracassados de repente vê a menina a ser conquistada na plateia sorrindo e por isso experimenta tudo que pode em um gesto só.
Feliz por ter um palco em sua janela, mexeu os pés vestidos de pantufas e riu para o silêncio tão falante daquilo que vivia. Virou o rosto, deixando os cabelos recém escovados escorregarem, e fechou os olhos para que as bailarinas, finalmente, deixassem a timidez e tirassem sua alma para dançar
Em um impulso de quem quer ficar, levantou e olhou de perto tudo aquilo de novo, antes que a noite brilhante chegasse com a lua no colo. E como quem está feliz verdadeiramente seguiu para a cozinha, alcançou o pote de torradas em cima da geladeira, lambuzou de manteiga meia dúzia de pedaços de pão torrado e por fim misturou preto e branco em uma xícara de porcelana que estampava o Cristo redentor.
Agarrou tudo, respirou fundo, sentou com as pernas de índio na cadeira e com um gole de felicidade genuína brindou a apresentação das bailarinas.

Por Natália Oliveira

sábado, 9 de abril de 2011

Re-sigo


É a delícia de saber que a criança foi embora, mas deixou rosas e um lembrete na porta: “quando encontrar pessoas pequenas e espinhos de graça, volta.”
E sem correr, sem buscar a calma em vidro, sem perder tempo com o já perdido, sem estourar os neurônios com pensamentos sem sentido...volto, mudo e re-sigo.
Re-sigo por que as velhinhas que conversam na praça esperam a vida sem olhar no relógio.
Re-sigo porque o menino negrinho olha o vira-lata e enche a boca de riso.
Re-sigo para beber água na bica, direto da fonte, já que, se antes eram poucos, agora não me restam copos para encher com tempestades.
Re-sigo.
Por Natália Oliveira

domingo, 13 de março de 2011

Retrato


É a paz que às vezes se apodera da minha alma.

Com os dentes recém-caídos ela desenha um sorriso enquanto eu tento descobrir o que carrega nas mãos sujas de chocolate e terra. Aperta os dedidinhos mostrando, sem perceber, que ali nada sobreviveria, mas nego acabar com o momento. Chuto coisas absurdas: “carro?”, “bola?”, “patins?”. Ela arregala os olhos a cada tentativa e balança a barriguinha que nunca viu chuchu, numa risada de último volume que me desarma inteira. Solto as últimas coisas que prendem a alegria e digo em voz alta: “viver é breve e é bom, né?”. Ela olha meus olhos marejados e abraça com os dedinhos melecados de marrom minhas pernas. Observo-a de cima. Cabelos embaraçados, calça levemente surrada, coração pulsante e falta de vontade de controle. Agacho, estonteante ela pede para ficar. Arrumo um espaço no centro de tudo e ela, com o sorriso aberto, me pede: "me acolha para sempre e me chame de paz. Sua paz”.
Ao Criador da minha!



Por Natália Oliveira

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Feliz, muito feliz, aniversário

E eu chegou aos 24 anos em paz e de pazes comigo. Feliz por ter vivido coisas tão bonitas. Nem sempre sem pontas ou asperezas, mas bonitas pq. de uma forma ou de outra me somaram peças ao quebra-cabeça que formo. Chego aos 24 anos com o coração aos pulos, com as mãos tremulas e com os gritos, chamados pelos amigos de sindicais. huahuahuaauhahuhua. E eu dou risada alto e agradeço a Deus pelos amigos. Meus presentes diferentes, pulsantes, alegres e fundamentais para toda e qualquer caminhada que trilhei e que ainda vou trilhar.
Chego aos 24 anos quebrando qualquer ideia de inferno astral, de depressão do ciclo novo, de tristeza sem nome. Chego FELIZ da forma mais genuína e verdadeira que me cabe. Feliz pq. apesar de louco e angustiante, algumas vezes, viver, no sentido mais literal que isso tem, é uma das coisas mais gostosas que já experimentei. E eu sou grata a Deus por ter me dado o dom da vida, por caminhar ao meu lado e somar ao nosso grupo pessoas maravilhosas!
Enfim, FELIZ!
Um brinde às nossas vidas.
Por Natália Oliveira

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Existência

Passados 14 dias do ano novo, digo: 2010 foi um ano bom. Consegui olhar para dentro de mim mais de uma vez e dessas visitas ao interior nunca voltei de mãos vazias. Em uma delas trouxe as armaduras usadas diante de pessoas tão frágeis quanto eu. Trazê-las à margem me custou um pouco, eram pesadas e machucavam meus braços, mas mesmo assim, bravamente – ainda que no momento me sentisse fraca– persisti.
Jogá-las no lixo não me pareceu difícil, doloroso mesmo foi perceber que, mesmo com o corpo nu e sem estoques, ainda carregava na pele a proteção. Arrancá-la encharcou meu vestido de lágrimas e o meu coração de vazio. Por um tempo, que me pareceu infinito, senti o chão desprender dos meus pés, mas sobrevivi com toda a humanidade que me cabe, caindo, ralando os joelhos e curando-os com merthiolate e band-aid.
Hoje consigo resistir às capas de super-herói, mesmo quando estão em liquidação, e mandar meus pensamentos acusadores para uma colônia de férias, quando passarem dos limites. Posso ouvir meus gritos internos, mesmo quando o barulho exterior é alto e me respeitar, mesmo quando o mundo prefere nomear esse gesto de egoísmo. Consigo me enxergar claramente, sei das minhas rosas, mas também reconheço meus espinhos e é nesse bosque que passeio em busca de respostas para a minha doce, cítrica, confusa e pulsante existência.
Por Natália Oliveira

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Passo

É a hora da travessia, de pegar as rédeas, de mudar o destino, de acreditar no novo dia que vem. E ele vem. Ele vem para os que acreditam e caminham na direção de novos horizontes. Que não esperam, que não só desejam, mas que buscam! Um lamento aos obstáculos, já vesti meus pés.
Por Natália Oliveira