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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A gente se cuida

Em meio às desculpas e licenças alcanço uma poltrona no final do ônibus. Com uma mão guardo meu bilhete único recém-vazio, com a outra surge Fiódor Dostoiévski e Memórias da Casa dos Mortos. O livro é atraente e cheio de mistérios, antes de abri-lo, guardo as moedas que garantirão minha passagem no final da tarde. Me entrego à história.
Ao longe, de quando em quando um apito surdo avisa a parada. As pessoas sobem, descem, conversam, gargalham e reclamam, eu leio. Concentrada na Festa de Natal dos presos, não percebo a entrada do homem de sua sacola. “Atenção senhores passageiros”, ele grita. Finjo não perceber, mas ele continua. “Fui drogado. Ninguém acreditava em mim, mas a PROLIB apostou em minha vida”. Continuo olhar o livro sem me atentar a uma única palavra.
“Hoje estou curado, hoje cuido de outros viciados, hoje trago a vocês uma cartão que não tem valor. Você podem pagar o que quiserem por ele”. Fechei o livro. “O dinheiro será revertido para salvar vidas” Afundei os dedos no bolso e, sem pensar muito, levei às mãos dele, as minhas últimas moedas.
Horas mais tarde sai do trabalho. Um leve desespero tomou conta do meu peito, a falta de dinheiro. Ainda assim, dei sinal. Atravessei o curto corredor e a catraca me barrou. Afastei na inútil tentativa de saber o que fazer. Ao longe, de quando em quando um apito surdo avisava a parada. Mal pude ouvir quando disseram.“Vem moça, eu passo para você, você tá perdoada!”.
Vamos montar um mundo que você cuida dele e eu cuido de você. Se você acreditar que é possível eu posso confiar em você.
Por Natália Oliveira