Ao senhor. Por Natália Oliveira
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domingo, 21 de novembro de 2010
Um Batom
O relógio marcava mais de quatro horas quando cheguei. Ele? Já estava lá. Vestia calça jeans azul, camisa, blusa de lã e sapato social. A pele bronzeada cobria toda a altura mediana e os cabelos cacheados em preto estavam “no lugar”. Com as mãos grossas segurava uma sacola.
Os ônibus passavam rápido pela avenida, mas quando paravam, o homem caminhava até eles e tocava com a ponta dos dedos a pintura branca do carro. O mesmo ritual dezenas de vezes, até que o movimento cessou. Ele então sentou ao meu lado, jogou o tronco para frente e um braço para trás. Do gramado pegou um pedaço de plástico preto, recentemente deixado acredito. Mexeu em um dos lados, fazendo com que uma ponta rosa escura aparecesse. Um batom.
Olhou fixamente para o objeto que segurava e em seguida encostou várias vezes a maquiagem nos lábios que, por sua vez, ficaram cheios de bolinhas coloridas. Satisfeito, ele, então, lambuzou os dedos e passou o rosa pelos cabelos, penteando os fios com as mãos. O contraste da cor feminina com os traços extremamente masculinos fazia graça, mas algo de ternura transbordava dele, eu não ri.
Meu ônibus chegou e, antes de partir, pude ver ele inclinando e chacoalhando o batom para baixo, em seguida levou as mãos ao pescoço e, com mais rosa, enfiou-as embaixo do braço... "Loucura e inocência são tão parecidas, que a diferença, embora essencial, mal se percebe." (William Cowper)
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Num Mundo de Falsos Sãos
Entrei no ônibus e escolhi as primeiras cadeiras, assim como você pediu. Depois de alguns minutos, o motorista também entrou. Ele aparentava pouca idade e alguma religiosidade, antes de assumir o volante, fez o sinal da cruz. Era moreno, magro. Chovia e nós pegamos um pouco de trânsito nos primeiros momentos, mas quando todos os carros optaram pela via expressa, nós fomos pela outra e a velocidade aumentou.
Entrou muita gente depois que partimos, numa destas paradas entrou um homem. Negro de cabelos Rastafari, parecia que tinha feito há tempos, porque a raiz já aparecia com quase um dedo. Vestia uma camiseta sem mangas, amarela fosforescente e uma bermuda preta com alguns coloridos retos. Quando se aproximou um cheiro de corpo sujo invadiu de súbito minhas narinas.
Sentou ao meu lado com pernas e tronco virados para o corredor. Levantou o braço esquerdo e com a mão segurou o corrimão que crescia em nossa frente. Estava ao meu lado, mas era como se ignorasse minha presença ali. Tinha duas pulseiras iguais de cor marrom, uma em cada pulso. Largas com aspecto de madeira. Eram em relevo, uns pontiagudos.
Segurava um carrinho na mão. Era preto e estava envolto na embalagem original. Ele olhava o brinquedo e falava. Sua voz não parecia a de um adulto, era semelhante a de um desenho animado. Falava alto e sozinho. Ora parava e olhava fixamente para frente e então ria, balançando os ombros. Em certo momento, o único que se virou para o meu lado, olhou em direção a janela que eu encostava e num resmungo falou: “tomara Deus que eu não esqueça. Andréia era uma menina especial”.
Em seguida ofereceu lugar a uma senhora que chegara, a voz era clara de um adulto, fez isto girando em uma das mãos um brinco em forma de argola, era dourada. A mulher recusou, mas depois de poucos minutos ele levantou. Desceu os dois primeiros degraus da porta dianteira, há virou o corpo, como se fosse subi-los de novo, mas em vez disto estendeu os braços na altura dos ombros, flexionou as pernas e passou a soltar gritinhos. “Uuuu” “Uuuuu”. Logo substitui estes por algumas risadas curtas que começavam por um sonoro A e seguiam de seqüenciais Is. “A i i i i”. Parecia surfar.
O acrílico o separava de um menino ainda novo. Pele branca, magro, cabelos pretos penteados para um só lado. O garoto parecia não prestar atenção no homem, mas ele o viu. Como se voltasse de um transe, num movimento brusco segurou no corrimão próximo e colocou a cabeça próxima das mãos jovens que mexiam. “Quebrou ai amigão?” O menino respondeu que o fecho do chaveiro havia quebrado e que tentava consertar. O homem, então, saltou os degraus, aproximou do banco do rapazinho, levantou a camiseta, deixando aparecer parte de suas nádegas, levou uma das mãos à cintura e disse “eu também quebrei este. Sabe o que você faz? Chega em casa...”
A mulher ao meu lado parecia tensa. Conversamos um pouco, mas pude ouvi-lo dizer, ainda, ao cobrador que queria descer. Antes, lhe desejou bom trabalho, uma boa noite. Repetiu mais de uma vez, como se quisesse formalizar seu pedido. Sua voz agora era clara e sem o menor indício de loucura, mas ainda segurava o carrinho nas mãos.
"Há na loucura um prazer que só os loucos conhecem." (John Dryden)
Por Natália Oliveira
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