Tava vazio. Sentei num dos primeiros bancos depois de passar a catraca. Era banco preferencial, mas não tinha ninguém apto a usá-lo ali. Arrumei a bolsa no colo e procurei por um pacote de bolacha que não lembro de ter terminado. Não achei. Alimentei a ansiedade com alguns pensamentos sobre a noite, já passava das dez e eu não procurava por carona, como de costume, tinha tido coragem, enfrentava, sozinha, o medo dos noticiários. Me sinto mais viva quando consigo olhar pra cidade de perto, estava feliz por isto.
Não lia, apenas esperava e me entregava as cenas do dia, nas paradas lançava olhares aos recém-chegados. Algumas antes do meu destino, ela entrou. Vestia uma calça bege clara, uma bota preta de bico e salto finos, uma blusa decotada na mesma cor. Percorreu o caminho curto, entre a porta e o cobrador, em passos desequilibrados, bambeados e por um momento a julguei embriagada. Passou a catraca, mediu e encarou o homem que dormia encostado na janela. Subiu os degraus internos do transporte e em seguida deixou seus pés voltarem ao chão. Seu celular tocava e com uma expressa dificuldade atendeu.
Tinha os cabelos loiros tingidos, enrolados, curtos. Magra. Estava acompanhada por uma da mesma idade, só que mais encorpada, cabelos avermelhados, blusa florida, colo a mostra. Sentaram juntas, atrás de mim. Na minha frente, um acrílico que refletia mal o rosto da primeira. Desde então, participei da conversa, como ouvinte, distante. Falavam sobre a ligação recebida a pouco. A dona do celular dispensava palavras em voz alta e olhava constantemente para o lado oposto, como quem procura por público. A franja tampava parte de seus olhos pintados de preto, os fios estavam molhados.
O assunto era cada vez mais animado. “Ai eu falei pra ele, você só pode ser um anjo. Ai ele respondeu: ‘você tá dizendo que eu sou um anjo?’ é, no meio desta homarada feia aparece você, bonito, cheiroso.” “É tão gostoso homem cheiroso, né?”. “É. Com certeza. Eu namorei com um menino que tinha o cabelo arrepiadinho – ela fazia gestos com a mão para ilustrar – cheiroso, magrinho, uma delícia”. “Ai, homem magro é tudo. Eu adoro”. Antes de descer, pude ouvi-las mais um pouco. “Ele ficou me olhando e eu nem ai. Ai depois de um tempo ele chegou e a gente dançou, quando acabou ele disse: “Valeu. Você dança bem e eu: ‘aé?’. “Tá certo deu uma de joão sem braço, né?”.
Antes de me encontrar com a calçada, uma última imagem, tinham rugas nos olhos e, agora, trocavam receitas sobre pele flácida. Comigo, chutei uma idade. Nada, mas certamente eram mais velhas que minha mãe. Mas eu não me importava, em busca da minha cama, só pensava em minha casa.
Por Natália Oliveira