Eu comia chiclete do chão, escorregava de bunda no barro e me perdia em latas de leite condensado. Detestava vestidos e qualquer coisa que me impedisse de subir em árvores. Me confundia quando me chamavam de sorriso e não de Natália. Tinha pânico de matemática. Não gostava dos números, das expressões, das divisões. Certa de que precisaria deles para fugir das broncas paternas, passava tardes e tardes comendo chocolate em pó debruçada em livros. Com o tempo decidi que saberia o suficiente para conferir o troco da padaria. Nada foi como planejei. Encontro hoje números em tudo. Dizem sobre dias de vida, sobre calorias, afirmam jovens e velhos. Separam. Números no relógio, números de beijos no rosto, números de desculpas, números de perdão, números de tentativas. Números limitam! Em lousas eles existem, quase sempre. Mas ontem ela estava tampada por um branco criativo. Na sala palavras, pirulitos e chocolates. E depois de tanto tempo, esqueci do tempo, dos números e do troco da padaria. Descobri momentos de alegria, com algumas crianças crescidas.
Por Natália Oliveira