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terça-feira, 7 de julho de 2009

Contra-indicação. Enxerga?

Desço do ônibus antes do ponto. Bem antes. Faço de propósito, motivada por um impulso quase irracional. As calçadas me parecem confortáveis e eu ando devagar sobre elas. Diferente de todos os outros dias, deixo o meu olhar se perder à vontade, hoje nada passará rápido demais. Sei que não perderei o ponto. Eu posso ver.
Sigo a trilha da minha volta e percebo que muita coisa mudou e eu nem percebi, m
esmo fazendo o mesmo caminho todos os dias. Não sabia da agência de turismo na esquina e nem da loja infantil que virou teen. Comida japonesa no bairro? Novidade para mim. Empresa de comunicação? Nossa! Preciso andar mais por aqui.
As pessoas passam com pressa e, distraída, eu tropeço nelas. Os noticiários cheios de guerra e de homens disfarçados de bem aproveitam a deixa e me invadem. Por um momento perco o vento de vista e sinto medo. Apresso o passo, seguro a bolsa contra o peito e lamento a ideia de ir a pé para casa. Olho pro céu na tentativa de segurar o tom claro, mas o que consigo é perceber que Ele não vive em meio às prisões. Volto a enxergar.
Chego em casa – depois de anos – com as costas molhadas. Andei. Largo a bolsa na mesa da sala sem vontade de trancar a porta, sem medo de que alguém invada minha casa, sem medo de nada. Sem fantasias, sem medo de vida. Sem medo. Sinto a euforia e a ausência de qualquer precaução. O mesmo que sentia quando era criança, quando dispensava óculos e ainda assim enxergava.
Sinto as pernas relaxadas e uma vontade imensa de gritar pro mundo que estou viva. Sinto a lógica de segunda a sexta-feira quebrar a expectativa de um final de semana numa deliciosa terça-feira. Não espero o feriado chegar logo. O momento me basta. Não preciso de colírios de seriado e nem de lentes de telefone. Tô viva, enxergo. Isso me basta.
E descarto os conselhos. “Tome cuidado, minha filha”. Cuidado para que? Eu já tomei muito e muito sem precisar. Eu não tomo mais sem indicação, eu não tomo mais para prevenção. Agora eu sou a contra-indicação, eu quero enxergar. Eu quero enxergar a vida por perto estar. Eu não quero que nada separe o mundo de mim. Eu só lembarei. "O que os olhos não veem, o coração não sente". Está decido. Eu quero sentir. Não posso mais ser presa de mim.
Por Natália Oliveira