segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Bobeira crônica

Hoje eu não sei de nada. Hoje eu não quero saber de nada. Vou dormir o dia inteiro, vou andar descalça na grama, vou comer na cama, vou ficar de pijama. Hoje não to nem aí. Vou largar tudo, vou deixar o mundo, vou rir a beça, vou virar moleca. Hoje não vou dizer “sim, senhor”, hoje não vou trabalhar com ardor. Hoje eu não vou, posso? Não tô a fim! Não vou comer marmelada, não vou sai para “gandaia”, não vou para lugar nenhum. Se eu precisar? Não vou. Vou falar que não vou, vou gritar que não gosto, vou torcer o nariz. Sou eterna aprendiz. Vou fazer cara feia, vou parecer uma freira. Não vou! Não Vou! Adianta? Não sou obrigada a comer marmelada, a fazer mulecada, a saber de nada. Não quero e não vou. Só se precisar. Aí eu vou. Se pedir com jeitinho, se falar com carinho, se me der um beijinho. Aí eu vou. E vou com vontade, porque gosto de roupas leves, de sambas leves e de vestir Levis. Não tem nada com nada? Eu sei. Eu sou assim! Tim tim por tintim. Quer saber de uma coisa? Eu estou no meu trabalho, ganhando meu salário, ouvindo desagrado. Estressei? Venho aqui, escrevo um monte de bobeira e fico aliviada. O que acha? Marmelada? Não! Goiabada. "Como posso querer que meus amigos entendam as coisas loucas que passam pela minha cabeça, se eu mesmo, não entendo?" Salvador Dali. Por Natália Oliveira

Nem faz muito tempo, ou faz?

É do tipo de coisa que só o tempo cura. A gente já nasceu curada. Uma mistura boa de bobeira, risadas e baladas. Nem faz muito tempo, ou faz? Pediram para gente sorrir, mas alguém chorou. Agora não sei se foi eu ou você. Ou nós duas? Sei lá. A gente se confunde demais. Muito diferentes e iguais. Aprendemos a viver em caminhos opostos mais sempre a postos. Chamou? Não, só pensei. É...é você. Nem faz muito tempo, ou faz? Que eu deixei de ser criança e desaprendi a insistir? Não! Não deixei de te amar. Ainda a amo muito. Mas estou fazendo a lição de casa das pessoas que amam passam. Respeitarei, esperarei. O amor cura a mágoa. E mágoa cala, né? Eu entendo. Deixarei as explicações, de novo elas. Você sabe, sente. E também quem mandou crescer? Rápido demais. Que pena! Não podemos mais voltar. Nos impediram, não deixam. E logo a gente que não sabe lidar. Logo a gente! Te decifro da cabeça aos pés, e você é eu sem ninguém desconfiar. Uma cabeça e a outra os pés. Somos duas, somos sinônimos, um atropelo de sinônimos. Por isso espero. Mas vê se vai logo! Às vezes dói, dói demais. É do tipo de coisa que só o tempo cura. A gente já nasceu curada. Uma mistura boa de bobeira, risadas e baladas. Nem faz muito tempo, ou faz? Pediram para gente sorrir, mas alguém chorou. Agora não sei se foi eu ou você. Ou nós duas? Sei lá. A gente se confunde demais. Muito diferentes e iguais. Aprendemos a viver em caminhos opostos mais sempre a postos. Chamou? Não, só pensei. É...é você. Por Natália Oliveira

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Mundo dos Humanos

Voltando do meu almoço passei em frente ao corredor da Educação Infantil. Não sei porquê, mas lembrei do noticiário da noite anterior. De novo o bombardeio de imagens, fotos e sons. De novo sangue inocente derrubado ao chão, de novo sensações. De novo injustiça. De novo, tudo. Tudo, de novo. Mais uma vez mães e pais choram, mais uma vez corações se apertam. Mais uma vez a humanidade pergunta: porquê? Porquê tanta maldade? Alguém sabe? Ninguém sabe. Não os humanos. Os humanos não sabem. A tontura vem. Ela só tinha 15 anos. Só 15. Não deu tempo dela sentir o cansaço do trabalho e o alívio que traz o fim de semana. Não deu tempo de constituir uma família e nem saber, ao certo, o valor que a dela tem. Não deu tempo de muita coisa. Quem sabe quais os sonhos, os medos e os anseios? Ela teve chance de realizá-los? Mais uma vez tudo se foi, assim como castelos de areia, quando a chuva cai, expectativas e desejos se desmancharam. Vozes perguntam, porquê. A humanidade responde sem respostas. Roubaram o direito de viver. Roubaram o direito de errar e acertar. Roubaram o sorriso dos lábios e as lágrimas do rosto. Roubaram tudo. Ela só tinha 15 anos. Não, é ela não é mais a esperança para o mundo, porquê a roubaram do mundo. A voz dela embargou. O coração parou de bater. E perguntam: Porquê? Voltando do meu almoço passei em frente ao corredor da Educação Infantil. Não sei porquê, mas lembrei do noticiário da noite anterior. Ainda me sentia tonta quando uma mãozinha molhada encostou em minha perna. Agachei e senti o beijo mais gostoso, que recebi em toda a minha vida. Sentei-me, apoiando nas paredes, agora leve. Solta, sem pesos, agora. Só o meu coração que batia forte e sem ritmo e minha garganta, que tinha dado um nó. Não evitei que meu rosto molhasse, assim como não impedi o abraço que vinha. Aos poucos senti o amor que me era ofertado de graça. Senti Deus. Senti as respostas. Senti a ausência dele no mundo. No mundo dos humanos. Por Natália Oliveira

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Por que que a gente cresce?

Eu havia acabado de chegar em casa quando a campainha tocou, confesso que não lembro que horas eram, mas sei que quando abri a porta já estava bem mais escuro do que há cinco minutos. Recebi o pedaço de papel que o homem me entregara e sem agüentar de curiosidade li, antes mesmo de fechar a porta. Fiquei parada por um tempo até me recompor. Seis anos. Minha prima me convidava para sua festa de aniversário de seis anos! A última vez que a vi, ela tinha apenas dois. A semana correu de novo, e lá estávamos nós, pai, mãe e irmãos apertados e preocupados com os compromissos que tivemos que desmarcar. O carro que, um dia, serviu de cama em viagens longas, agora parecia uma caixa de fósforo. Ainda bem que não demoramos muito para encontrar a rua, agora o prédio, me ajudem, número 39. Achamos. Descemos do carro e com as pernas doendo entramos no buffet repleto de bexigas. Olhei para o salão vasto de crianças e com vergonha perguntei: Quem destas é a Bia. Ficamos intactos, parados como estátuas, cheios de vergonha. Não existiam sinalizadores, nem holofotes. Nenhum sinal da menina que vimos com dois anos, e agora? Resolvemos arriscar, desesperados disparamos parabéns. Elas se divertiam e logo entenderam que essa era a mais nova brincadeira. Eram abraçadas e voltavam para fila em meio a gargalhadas. Cansados, paramos e foi só nessa hora que percebemos a presença de uma garotinha, que nos esperava pacientemente de braços abertos. Sua pele era branca e sua pequenina boca dava lugar ao mais lindo sorriso sem dentes que já vi. A abracei e percebi que ela sim era a Bia. Tempos depois fiquei sabendo que minha tia sempre esteve no fundo daquele salão. Ela viu tudo, toda a cena. Nossos medos, nossas dúvidas e mesmo assim não nos ajudou. Deixou nossos rostos ficarem vermelhos, nossas mãos tremulas e não teve a coragem de estender a mão. Depois desse dia nunca mais a procurei. Depois desse dia nunca mais existiram festas de aniversário da Bia. E isso tudo acontece, porque a gente cresce e abandona a criança que sacrifica os grandes brinquedos por risadas. Que quando são passadas para trás entram na fila de novo. Perdemos a vontade de abrir os braços. Perdemos o que temos de melhor. Perdemos tempos demais. Afinal, porque que a gente cresce? Por Natália Oliveira

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Meu ou nosso??

Hoje a caminho do trabalho, entrei no metrô. Como sempre, evitei os assentos de cor cinza que são de uso preferencial, para pessoas com restrição de mobilidade e blá, blá, blá. Abri meu livro e como de costume desejei minha cama. Incrível como ler de manhã me dá sono. Ajeitei minha bolsa em meu colo e para não dormir passei a observar os passageiros ao meu redor. No último banco do vagão uma senhora de cabelos brancos. Dois grandes brincos de argolas pendurados. Anéis em todos os dedos de suas mãos. Estranho. Enfim a estação Campo Limpo. Levantei. Antes de descer a última gravação: O metrô é seu, denuncie qualquer ato de vandalismo. Não deixem estragar o que é nosso. Ã? Meu ou Nosso? Seu ou meu? Ã? Estranho. Por Natália Oliveira

Um Dia Desses

E eu tô de saco cheio, gritei. Bati a porta e assim que atravessei o portão senti o vento refrescar meu rosto. Atravessei a rua movimentada e, sem perceber que era observada, peguei o primeiro ônibus que parou. Sentada ao lado de um desconhecido, travei uma conversa sem nexo algum. Falamos sobre futilidades, discutimos assuntos sem fundamento e rimos até nossos olhos encherem de água. Cheguei ao ponto final feliz por não saber onde estava. Olhei pro céus, agradeci. Sem olhar para trás deixei minhas pernas decidirem meu destino. Avistei nuvens verdes aos meus pés. Tirei meus sapatos. Larguei minha bolsa. Joguei para o alto todo o trabalho que tirou meu sono. Senti a natureza mais perto de mim, abracei. A paz que tanto busquei vinha solta em forma de canto. Já não lembrava mais de nada. Meu trabalho, minha chefe, tudo tinha ficado para trás. Tudo. Deitei e senti toda a energia daquela terra marrom forte. A sombra das árvores me cobria. As nuvens afastavam a luz do meu rosto. E eu adormeci. Foi num dia desses... Em uma quinta-feira qualquer... A primeira noite que consegui sonhar com toda a coragem que me ensinaram não ter.
Por Natália Oliveira